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“Se Meu Apartamento Falasse”: Fábula hilariantemente corrosiva e melancólica dirigida com brilhantismo por Moeller & Botelho.

Por Paulo Neto.

Para galgar passos mais amplos dentro de uma empresa, um arrivista funcionário fornece seu apartamento aos colegas de cargos mais elevados para onde possam levar suas amantes. Os desdobramentos desta empreitada o levarão a caminhos hilariantes e sofridos. O musical, chamado originalmente “Promises, Promises”, é baseado no filme “Se Meu Apartamento Falasse” (The Apartment, vencedor do OSCAR de Melhor Filme em 1960), tem texto de Neil Simon e canções antológicas de Burt Bacharach e Hal David.

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É absolutamente um acerto remontar, no atual momento político e moral, uma comédia que brinca, ironiza e satiriza temas como machismo, sexismo, misoginia, troca de favores corporativos, assédio dentro de escritórios e alpinismo social. O personagem principal, Chuck Baxter, faz oportunas inserções narrativas, explicando ao público como é eticamente condenável fazer o que ele faz. Nas mágicas, afinadas e refinadas mãos da dupla Charles Moeller e Cláudio Botelho, o clássico vira um bálsamo atualíssimo e delicioso.

Quando uma fábula mordaz e corrosiva cai nas mãos de Moeller & Botelho, indubitavelmente, eles sabem o que fazer com ela. Sabem lidar com o cáustico de forma inteligente, sabem transformar a nostalgia em atualidade e sabem arrancar (como em tantos espetáculos anteriores) a genuína doçura de dentro de universos absolutamente ácidos.

A dupla também sabe escolher elencos. A parceria com Marcelo Médici já rendeu os excelentes “Sweet Charity” e “Rocky Horror Show”. Apesar de não arrebatar em números musicais, Médici domina e conduz o espetáculo de forma cativante e criativa. É um comediante de recursos sofisticados e bem aplicados. O deboche, na boca e no corpo de Marcelo Médici, é um prazer inegável. Malu Rodrigues torna as canções ainda mais encantadoras. Não lhe falta o violão de Kristin Chenonweth e sua voz (sem o timbre idiossincrático típico de algumas comediantes) tem mais sensualidade e adequação à personagem. “I’ll Never Fall In Love Again” (numa versão lindíssima de Claudio Botelho) soa ainda mais bonita na sua interpretação. A química entre Malu e Médici rende momentos saborosos e hilários. A cena do soluço e espirro é impagável.

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Chamam atenção, entre os coadjuvantes, Fernando Caruso, Ruben Gabira (uma presença vibrante), Juliana Rolim (sua cena de alcoolismo rende gargalhadas altas) e André Dias. Este último tem desenvolvido habilidades de transformações vocais e corporais (vide “Bilac Vê Estrelas” e “Ou Tudo Ou Nada”) que resultam em trabalhos de qualidade.

Maria Clara Gueiros entra no segundo ato na pele da pilhérica e enlouquecida Marge Macdougall. Sua composição é um acerto em todos os sentidos: a escolha da voz, o escárnio na dosagem perfeita e a zombaria que faz a plateia deleitar-se. Uma atuação engraçadíssima, notável em suas nuances de comédia. É dela também (em parceria com Edgar Duvivier) a arguta tradução do texto de Neil Simon.
O coreógrafo Alonso Barros faz um trabalho apurado no excelente número “Where Can You Take A Girl” (Pra Onde Levar A Mulher?). Figurinos de Marcelo Marques são caprichados e os cenários de Rogério Falcão nos transportam com delicadeza à década de 60. As orquestrações de Marcelo Castro são excelentes e é hilária a cena em que ele serve uma bebida na taça de Maria Clara Gueiros.

Charles Moeller e Claudio Botelho, além de todo o background em teatro musical, são também, mestres da comédia. São diretores que sabem como inserir a sétima arte (o cinema) dentro de um espetáculo de teatro, como bem realizaram em “Rocky Horror Show” e “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”. “Se Meu Apartamento Falasse” trata, com inteligência, sarcasmo e deliciosa melancolia das promessas que nos fazem (o mundo corporativo, os amores, a vida em si) e que nem sempre são cumpridas ou evoluem para caminhos desejados. É um espetáculo saborosamente refinado, de perceptível qualidade. Destes que nos fazem querer voltar ao teatro para ver e rever outras vezes.

“Se Meu Apartamento Falasse”

Teatro Santander (Av. Presidente Juscelino Kubitschek, 2041 – Itaim Bibi – São Paulo)

Quintas, Sextas, e Sábados às 21h. Domingos, às 20h.

Ingressos de R$ 25 (meia) a R$ 190 (inteira).

Somente até 24 de Fevereiro!

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