“ROQUE SANTEIRO”: Musical traz no texto bem urdida atualidade mas canções mostram-se supérfluas.

Por PAULO NETO.

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Baseado na novela televisiva de extremo sucesso dos anos 80 (por sua vez, adaptada da peça “O Berço Do Herói”, de Dias Gomes), “Roque Santeiro – o Musical” é encenado com temas ainda relevantes e urgentes nos dias de hoje: a exploração da fé popular, a invenção dos mitos para arrancar dinheiro do povo, a venda de produtos advindos da criação de heróis inexistentes, a hipocrisia das pequenas cidades, o poder nas mãos erradas, políticos e representantes religiosos em conluio para engendrar malandragens e arrecadar fundos ilicitamente… São muitos os temas espertamente escritos por Dias Gomes há 50 anos, ainda tão vivazes e atuais.

A adaptação opta, inteligentemente, por enxugar personagens (o religioso Beato Salu, o ator Rogério Mathias, O Lobisomem, a empregada Mina) e lapidar diálogos dos protagonistas, resultando em cenas de comédia eficiente e sarcástica, fazendo a plateia refletir sobre as mazelas que ainda assolam nosso país, especialmente dentro do Brasil profundo, onde o povo é ainda mais enganado e onde os corruptos borbulham com maior facilidade.

O espetáculo é “vendido” como musical mas no fundo, é uma boa comédia com algumas inserções de canções (boleros, tangos e baiões) compostas por Zeca Baleiro. Faltam coreografias. O elenco é numeroso e há momentos no palco que poderiam render coreografias mais vibrantes e bem desenhadas. É inegável o ótimo trabalho do cada vez mais requisitado Fabrício Licursi na direção de movimento, criando gestuais orgânicos, mas não são coreografias típicas de musicais, que causariam empolgação na plateia e trariam certa poesia aos personagens. A direção de Debora Dubois é bastante eficaz na condução dos atores e na extração e elaboração do humor, tão bem urdido pelo texto, mas peca quando o espetáculo se diz um “musical”. As canções de Zeca Baleiro, apesar da qualidade, são inseridas à força em algumas cenas. Falta fluidez nestes momentos entre texto e música. Trabalho muito mais orgânico e conciso, recheado de poesia e fluidez narrativa fez João Falcão ao adaptar para o palco “Gabriela”, de Jorge Amado, com canções que faziam brotar as almas dos personagens e linkando uma cena na outra com maior destreza.

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O elenco é bastante audaz e competente. Jarbas Homem de Mello reinventa seu Sinhozinho Malta com alguns elementos da criação de Lima Duarte e ainda assim, consegue resultar-se divertido. A ótima Lívia Camargo opta por criar uma Viúva Porcina com mais originalidade, distanciando-se do registro operístico de Regina Duarte e é puro carisma. Flávio Tolezani opera quase sempre na chave do overacting e do galã narcisista mas sai-se bem neste personagem específico (Roque Santeiro). O luminoso Samuel de Assis está notável como Zé das Medalhas, especialmente nos números musicais. Dagoberto Feliz desenha seu Florindo Abelha com as ferramentas adequadas para recriar um prefeito palerma e digno de chacota. A criativa Luciana Carnielli é uma das melhores do elenco em sua composição de Matilde, a dona do bordel. A talentosa Nábia Vilela sabe fazer sua Dona Pombinha grandiosa em poucas cenas e arrasa em um número musical. Edson Montenegro dosa seu vigário com tintas hilárias e sabe pincelar a hipocrisia com inteligência. Cenografia e figurinos são corretos, sem grandes arroubos.

O espetáculo poderia muito bem sobreviver sem a música, sem as canções. O texto é tão auspicioso e o elenco é tão vibrante na comédia que a música resulta quase supérflua. Montagem propícia e conveniente para a situação política do país, onde os poderosos ainda fazem a festa com a exploração do povo e com a subestimação da inteligência alheia.

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