Montagem paulistana de “RENT” equilibra-se entre frias fragilidades e aquecidas emoções genuínas.

Por PAULO NETO.

RENT

O musical “Rent” estreou há exatos 21 anos na Broadway e trouxe um novo fôlego ao falar (cantar) com honestidade sobre a solidão nos grandes centros, desemprego em Nova Iorque, desabrigados lutando por um teto e a crise política americana do final dos anos 80 em meio ao fantasma do HIV. Jonathan Larson, o autor, não pôde ver a estreia. Faleceu semanas antes. Rent é um mosaico audaz de personagens tentando encontrar seu lugar (profissional e pessoal) em um mundo polvilhado por drogas, dificuldades, a ampliação da AIDS, amores complicados e um background vigoroso alimentado pelo rock.

A eficiente (e também problemática) montagem paulistana chega em boa hora, numa época em que a sífilis volta a assombrar os jovens, a AIDS retomou sua força maligna e o rock continua a ser o extravasamento preferido da alma humana. Rent é um musical de forte potência (vocal, temas, cenas linkadas) e precisa de uma direção lúcida e experimentada. Susana Ribeiro dirigiu (e foi premiada) recentemente a ótima montagem do drama “Conselho de Classe”. Entretanto, conduzir um espetáculo do porte de Rent (cujos temas e movimentações precisam de agilidade e conexões) requer mais experiência em teatro musical. A montagem começa a engrenar a partir do final do primeiro ato (coincidência ou não, depois da entrada da personagem Maureen, de Myra Ruiz). Há números bonitos e comoventes, como “Seasons Of Love”, “Without You” e “Another Day”, mas há barrigas enfadonhas, momentos teatro-amador com cenas desarticuladas e dispersas, especialmente na primeira hora da montagem. Todo o primeiro ato parece prolixo, cansativo e desfocado. O cenário de André Cortez tenta ser eficiente mas não confere originalidade, nem beleza. A iluminação poderia ser mais criativa, contribuinte e humanista no contar de uma história tão rica e dolorida.

FOTO: Caio Gallucci

Thiago Machado e Ingrid Gaigher como Roger e Mimi. FOTO: Caio Gallucci

Mas há pontos altos e um elenco estonteante. A montagem consegue comover em momentos-chave, muito devido à dedicação de seu energético cast. O excelente Thiago Machado, além de ser o preparador vocal, abraça o papel de Roger com grande poder e astúcia, entregando uma atuação honesta e humana. A ascendente Ingrid Gaigher (que havia chamado atenção como coadjuvante em “Antes Tarde Do Que Nunca”) demonstra ser hábil na pele de Mimi, uma protagonista multifacetada, complexa e convalescente. A atriz emociona ao cantar “Without You”. Myra Ruiz (Maureen) arrebenta o palco com sua voz poderosa e Priscila Borges (Joanne) tem um dueto eletrizante ao seu lado: as duas surpreendem em “Take Me Or Leave Me”. O notável Max Grácio (Collins) supera desafios ao construir com verdade um personagem dolorido. O ator canta lindamente e arranca suspiros com sua voz grave. O inventivo Diego Montez desenha sua Angel com as tintas delicadas e necessárias para cativar o público mas não é tão bem-sucedido ao entoar suas canções e parte desta ineficiência vem do dificultoso trabalho de microfonia. O desenho de som e o sistema de microfonia precisam de um melhor monitoramento. Muitos atores iniciam suas canções com seus microfones fechados e somente depois de alguns segundos o técnico de som resolve respeitar o intérprete. Problema grave que precisa ser sanado. O carismático Mauro Sousa volta aos palcos depois de um longo recesso (ele foi Thuy em “Miss Saigon”, há quase 10 anos), no papel do “antagonista” Benny. O ator chama atenção em seus números vocais mas ainda precisa de um espetáculo que faça o público comprovar todos os seus recursos musicais (além de cantar lindamente, o ator toca piano de forma esplêndida). No ensemble, há que se destacar os trabalhos vibrantes de Bruno Sigrist e Lívia Graciano.

Com uma direção mais arrojada e experiente em musicais, “Rent” poderia ser estrondosamente belo. Ainda assim, a força de seu elenco capacitado consegue reproduzir toda a angústia dos corações destes jovens à deriva, tentando pagar seu aluguel e achar seu lugar no mundo ao som das guitarras.

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