“O que restou de você em mim”: A inflamação vermelha do término de um namoro deixa vir à tona um dos melhores solos dos últimos tempos.

Por Paulo Neto.

Num solo autobiográfico para expiar as dores do fim de um amor, Davi Novaes recebe as oito pessoas que compõem a enxuta plateia no saguão e, no teclado, já às lágrimas, dedilha acordes da trilha sonora instrumental do compositor Jon Brion, de “Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças” e “Someone Like You” (Adele). Subimos ao andar superior, onde sentamos em cadeiras dentro do quarto completamente vermelho. Paredes, lençol do colchão no chão, cartaz do filme “Ela” (com Joaquim Phoenix), livros diversos (Virginia Woolf, J. D. Salinger) e o vestido de Nicole Kidman no cartaz de “Moulin Rouge”. O vermelho da inflamação do menino que foi deixado por seu namorado será abraçado pelos espectadores, que, maravilhados, observam a turbulência condoída das memórias de alguém que foi obrigado a deixar para trás um grande amor.

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Davi Novaes escreve com grande desenvoltura e faz emergir emoções que comovem quem o vê entrando em contato com aqueles fragmentos. Em seu estimulante redemoinho de referências, há desde citações a Lygia Fagundes Telles a um momento em que ele dança ao som de “Maniac” (de “Flashdance”). Davi é um ator múltiplo, de dinâmicos talentos: escancara sua dor, faz gracejos de humor e canta com um timbre que provoca encanto. Davi abre uma janela (literalmente) dentro do quarto e deixa as oito pessoas verem sua emocionante visão de mundo.

O quarto vermelho às vezes transforma-se nos lugares onde ele costumava ir com o namorado: uma padaria, a sala 3 do cinema do Shopping Metrô Santa Cruz, a estação de metrô Vila Mariana e uma balada onde o coração do menino dispara.

Em seu celular, aperta o play do Spotify e nos deixa ouvir as canções que rechearam o amor que durou apenas um ano.

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Os maiores méritos deste solo (um dos mais bonitos dos últimos tempos) são a honestidade e a verdade com as quais o Davi dramaturgo e o Davi ator deixam resvalar todo o seu interior inflamado.  Sua intimidade é delicadamente invadida através de relatos onde o espectador consegue identificar-se. Consegue “vestir a luva”.

O vermelho do coração do menino escorre enquanto as oito pessoas enxergam a beleza que há por trás das lentes arredondadas dos óculos do Davi escritor e intérprete de suas próprias mazelas.

“O Que Restou De Você Em Mim” é enxuto, autêntico, moderno e docemente emocionante. Vale muito a pena conhecer as palavras precocemente amadurecidas e lindamente expressas de um jovem ator em plena ascensão.

“O Que Restou De Você Em Mim”

Texto e Atuação: Davi Novaes

Direção: Alejandra Sampaio e Virginia Buckowski

Concepção Geral/Iluminação/Cenário/Figurino/Trilha Sonora: Alejandra Sampaio, Davi Novaes e Virginia Buckowski

Fotografia: Victor Miranda

ZONA FRANCA (somente 8 lugares) – Rua Almirante Marquês de Leão, 378 – Bela Vista.
Telefone para RESERVAS: (11) 98202-4658
A bilheteria abre 1 hora antes da apresentação e aceita cartão de débito.

Sexta e Sábado, às 20h.

Ingressos: R$ 40

Duração: 65 minutos

Classificação: 14 anos

Somente até 23/2/19!

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