“O Jornal – The Rolling Stone”: Kiko Mascarenhas e Lázaro Ramos dirigem espetáculo obrigatório sobre amor proibido em Uganda.

Por Paulo Fernando Góes.

Kiko Mascarenhas e Lázaro Ramos são nomes conhecidos e recorrentes de excelentes trabalhos na televisão, no cinema e, como não poderia deixar de ser, também no Teatro. Lázaro despontou na cena carioca com “A Máquina”, de João Falcão, junto com Vladimir Britcha, Wagner Moura e Gustavo Falcão, todos desconhecidos do grande público na época. Mas ainda em Salvador, Lázaro fez mais de 20 peças com o excelente Bando de Teatro Olodum. Kiko é outro veterano do Teatro, com mais de 30 peças no currículo. Em 2016, interpretou o papel-título de “O Camareiro”, ao lado de Tarcísio Meira, em seu retorno aos palcos após 20 anos sem fazer Teatro. O texto foi traduzido por Diego Teza, mesmo tradutor de “A Outra Casa”.

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Kiko Mascarenhas e Lázaro Ramos: ideia de trabalho em conjunto que levasse a reflexão surgiu nos bastidores de “Mister Brau”.

Estes dois nomes experientes criam automaticamente uma grande expectativa no público que sai de casa para assistir “O Jornal – The Rolling Stone”. Grandes expectativas costumam vir acompanhadas de grandes decepções mas é o contrário que acontece aqui. A direção e os olhares sensíveis de Lázaro e Kiko surpreendem positivamente até a mais crítica das plateias. A beleza plástica do espetáculo impressiona. Há cenas que, congeladas, transformariam-se em belíssimas pinturas. Todas as soluções cênicas apresentadas são absolutamente teatrais e funcionais, sem jamais abandonar o primor estético. É de encher os olhos e a alma.

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Marcos Guian e Danilo Ferreira: Atores cativam o público ao contar a história de amor proibido entre Sam e Dembe.

“O Jornal – The Rolling Stone” estreou em 2015 em Londres e rapidamente ganhou aplausos do público e da crítica especializada. Por este roteiro, o jovem dramaturgo britânico Chris Urch recebeu o prêmio Bruntwood, seis indicações ao Prêmio Off West End e uma nomeação ao Prêmio Evening Standart.

O espetáculo conta a história de um amor proibido que acaba por afetar a vida e o destino de todos ao seu redor. Após a morte do pai, três irmãos – Joe, Dembe e Wummie – precisam reconstruir suas vidas. Joe se prepara para ser reverendo enquanto Dembe e Wummie estudam para progredir diante da desigualdade. Mas o destino seria fatal: Dembe conhece Sam eles acabam se apaixonando. Condenados pela lei, pela sociedade e pela religião, eles terão de optar entre se separar ou arriscar a própria vida para viver esse amor.

Inspirado em fatos reais, O Jornal é uma alusão ao periódico ugandense The Rolling Stone que, em 2010, publicou uma lista com 100 nomes de homossexuais e incitou seus leitores a enforcar os mencionados. Embora passado em Uganda, essa poderia ser uma história nossa. Infelizmente. Casos de intolerância religiosa, racismo e crimes cometidos contra homossexuais são quase lugar comum no Brasil. Somos o país que mais mata homossexuais no mundo, mais do que em 13 países do Oriente e da África, onde há pena de morte aos LGBT. A Uganda de “O Jornal” também é aqui.

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O elenco de ouro foi selecionado entre 5 mil inscritos, em projeto com parceria da Rede Globo.

O elenco de “O Jornal – The Rolling Stone” merecia um prêmio pelo conjunto da obra. Talvez eles não recebam indicações às premiações do Teatro carioca porque é uma missão quase impossível destacar um nome ali. São seis diamantes, seis monstros, seis forças da natureza, seis estrelas. A Mama de Heloísa Jorge tem um peso e uma força inacreditáveis para seus 33 anos. A atriz é angolana, veio para o Brasil após o conflito civil de seu país e já protagonizou novela por lá. André Luiz Miranda (Joe) é um exímio malabarista que se equilibra na tênue linha entre a doçura e a dureza de um pai. Danilo Ferreira (Dembe) emociona como um dos protagonistas, tornando visível toda a luta interna que seu personagem enfrenta. Indira Nascimento (Wummie) é uma deusa do Ébano em cena. Seu trabalho é tão intenso que é difícil imaginá-la vestindo outras roupas, com outro cabelo ou em outro lugar que não os da sua personagem. Marcella Gobatti (Naome) recebeu, não por acaso, uma das personagens mais difíceis. Com uma composição criada a partir do silêncio, basta um grito da sua personagem para seu trabalho ficar marcado em sua memória. E Marcos Guian (Sam) defende seu protagonista com toda a humanidade que o personagem pede, já que é ele quem, com olhar de estrangeiro, coloca um espelho diante desta família. É difícil respirar ou piscar com estes atores em cena.

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Diretores e elenco reunidos: “Quando o teatro cria um espelho da atualidade é preciso prestar atenção e não deixar que o silêncio se transforme em cumplicidade”, afirma Kiko Mascarenhas.

Se fôssemos um país sério que valorizasse a cultura, este grupo conseguiria facilmente uma boa verba para se tornar uma companhia de atores e assim, jamais privar o público do deleite de vê-los em cena. Tamanha excelência no elenco tem uma explicação: Lázaro idealizou uma oficina que contou com o apoio da Rede Globo e que mobilizou diversos profissionais para um processo de escolha de elenco criativo e único. Foram 5 mil inscritos que se afunilaram em 70 atores de sete estados para participarem de aulas de dança, canto e improviso com Lázaro, Kiko, o coréografo Zebra e o preparador vocal Wladimir Pinheiro. Em tempos onde todo mundo tem pressa, agenda cheia e prazos curtos, “O Jornal – The Rolling Stone” mostra a diferença que faz um elenco preparado no palco.

Foi nos bastidores da série televisiva “Mister Brau” que Kiko e Lázaro começaram a pensar em um projeto juntos, que trouxesse reflexão e fosse urgente. De fato, “O Jornal – The Rolling Stone” é um dos melhores espetáculos da década, um acontecimento raro de se ver no palco, onde todos os talentos convergem para o mesmo ponto: contar aquela história urgente, atual e necessária. Não há vaidade em cena. Ali, o ator está apenas a serviço do bom Teatro. O Teatro que transforma. Os racistas e homofóbicos que, quando condenados por seus crimes, tem sua sentença convertida em doação de cestas básicas ou prestação de serviços à comunidade deveriam também ser obrigados a assistir “O Jornal – The Rolling Stone”. Aí sim, alguma salvação tornaria-se possível.

“O Jornal – The Rolling Stone”

Teatro Poeira (Rua São João Batista, 104, Botafogo, Rio de Janeiro)

De 5a a Sábado, às 21h e Domingo às 19h.

R$ 80 (inteira) / R$ 40 (meia)

*Assinantes do jornal “O Globo” tem 20% no valor da inteira.

Somente até 17/12/2017!

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