“O Filho do Presidente”: Último fim de semana de espetáculo atualíssimo no Teatro Nelson Rodrigues (RJ).

Por Cristiano Ayres.

O espetáculo “O Filho Do Presidente” é baseado na peça “Now or Later”, do premiado dramaturgo americano Christopher Shinn. Esta é a primeira montagem brasileira deste texto. A direção é de Marcus Faustini, os figurinos e cenários da premiada Carol Lobato e Fernando Mello da Costa, a iluminação do veterano Aurélio de Simoni e a tradução de João Polessa Dantas.

Christopher Shinn: dramaturgo americano ganhou o Pulitzer por "Now or Later" que, no Brasil, ganhou o título de "O Filho do Presidente". FOTO: MARIA BARANOVA.

Christopher Shinn, dramaturgo americano indicado ao Pulitzer. FOTO: MARIA BARANOVA.

Christopher Shinn é autor de 12 peças, destacando “Now or Later”, “Where Do We Live”, vencedora do prêmio Obie de melhor texto, “Dying City”, finalista do prêmio Pulitzer, “Picked” e “Teddy Ferrara”. Suas obras foram encenadas em teatros prestigiados como o Lincoln Center Theater e o Manhattan Theatre Club.

Toda a ação da peça se passa em um quarto de um hotel no Sul dos Estados Unidos, na sede do Partido Democrata durante a apuração da eleição para a presidência. O candidato em questão, Sr. John (Anselmo Vasconcelos), atravessa um momento delicado com o filho John (Felipe Cabral), jovem universitário que, num momento de descontração na festa de uma amiga, se vestiu de Maomé e seu amigo Matt (Hugo Lobo) de pastor Bob, um evangélico que faria aliança com o futuro presidente. E para piorar a situação, os amigos estavam em poses de cunho sexual. Por mais que se tratasse de uma brincadeira, afinal, eles são amigos, a cena foi registrada e as fotos ganharam o mundo através da internet, tornando-se o estopim para desencadear todo o embate do espetáculo.

A partir dessa circunstância, o filho John sofre uma pressão ferrenha, não apenas por seu pai, mas por todos ao seu entorno, para que ele desfaça essa situação, num pedido de desculpas público.

Felipe Cabral e Anselmo Vasconcelos: debate atual e oportuno em "O Filho do Presidente". FOTO: LEONARDO AVERSA.

Felipe Cabral e Anselmo Vasconcelos: debate atual e oportuno em “O Filho do Presidente”. FOTO: LEONARDO AVERSA.

Felipe Cabral defende muito bem o jovem universitário John, com segurança e humor na medida certa, enquanto Anselmo Vasconcellos faz um candidato à presidência com a objetividade devida. Temas como fundamentalismo religioso, liberdade de expressão, sexualidade, censura, estado laico, falta de privacidade e interesses políticos servem como pilares de sustentação para a peça. No palco, estes assuntos ganham a dimensão necessária para que se promova o debate acerca destes atualíssimos temas. Embora a peça seja ambientada nos Estados Unidos, o espetáculo funciona perfeitamente para o momento político e midiático do Brasil.

A peça estreou em 2008, no Royal Court Theatre, em Londres, tendo o ator Eddie Redmayne (protagonista dos filmes “A Teoria de Tudo” e “A Garota Dinamarquesa”) no papel do jovem filho gay. Sucesso de público, a crítica inglesa não poupou elogios ao espetáculo e a montagem foi indicada ao prêmio Evening Standart Theatre Award de Melhor Peça.

Idealizador da montagem, o ator, roteirista e diretor Felipe Cabral tomou conhecimento da obra de Christopher Shinn numa conversa com um amigo. “Ele me indicou outro texto dele, “Teddy Ferrara”, sobre um garoto gay que se mata na escola. Comprei o livro e comecei a ler. Logo depois, numa viagem para Nova York, aproveitei para conhecer outras peças dele”, recorda Felipe.

“Comprei Now or Later, mas só fui ler dias depois do ataque terrorista ao jornal francês Charlie Hebdo. Fiquei impressionado. Parecia que ele tinha escrito o texto naquele momento do atentado, em 2015, e não em 2008”, relata o idealizador.

Uma direção precisa e inteligente de Faustini revela uma abordagem interessante sobre a questão da sexualidade do filho do candidato à presidência, sem panfletarismo e sem cair na armadilha fácil do clichê. Não está em jogo a aceitação de sua homossexualidade pelo pai que, em determinada cena, até lamenta o fim do último relacionamento do filho. O que conta nesse caso é a retratação pública do filho perante a exposição das fotos, o que poderia ser um entrave à vida política do pai.

O difícil momento político que atravessa o Brasil, os constantes vazamentos de vídeos, fotos, aúdios e o poder da Internet e das redes sociais em destruir carreiras fazem de “O Filho do Presidente” um espetáculo atualíssimo e necessário para levantar discussões acerca do tema.

 

“O Filho do Presidente”, de Christopher Shinn.

Teatro Nelson Rodrigues (Av. República do Chile, 230, Centro, Rio de Janeiro, RJ)

Com Anselmo Vasconcelos, Felipe Cabral, Hugo Lobo, Ingra Lyberato, Rodrigo Candelot e Vanessa Pascale.

Direção: Marcus Faustini

De quinta a domingo, às 19h

Ingressos: R$40 (inteira/plateia) e R$20 (meia) / Balcão: R$30 (inteira) e R$15 (meia).

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Somente até 19/11/2017!

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