“O Bosque Soturno”: montagem é sofisticadamente feroz, incisiva e vibrante.

Por Paulo Neto.

O dramaturgo Neil LaBute não faz concessões em seus textos. Provoca os espectadores com reflexões e indagações modernas e urgentes. A ditadura da beleza foi destrinchada em “Razões Para Ser Bonita”, com Ingrid Guimarães, seu último texto montado no Brasil e agora, “O Bosque Soturno” (In A Forest, Dark and Deep) é trazido ao palco pelas mãos talentosas de Otávio Martins (na direção) e Flávio Moraes (na tradução).

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Pedro Bosnich e Guta Ruiz: duelo entre irmãos e um segredo revelado.

Pedro Bosnich (que também produz e assina o figurino) e Guta Ruiz dão vida aos dois irmãos enfurecidos e amargurados que se acusam violentamente, ao mesmo tempo em que se protegem, num reencontro ambientado em uma cabana no meio da floresta, onde um segredo virá à tona. Machismo, liberdade sexual, os papéis dos gêneros no mercado de trabalho e até uma leve pincelada de incesto são temas veiculados no bom e provocador texto de LaBute.

Guta Ruiz faz um trabalho excelente que mistura hesitação com lucidez, inquietação com calma, falta de escrúpulos com correção. A atriz, que antes era mais vista no cinema (“Bruna Surfistinha”) e em séries (“Alice”, “9MM”), agora vem se dedicando ao teatro em textos instigantes e atuações cada vez mais admiráveis. Aqui ela consegue um desempenho notável, cheio de nuances e sentimentos à flor da pele, de uma mulher atormentada por segredos e memórias.

Pedro Bosnich, nos últimos tempos mais atrelado a peças infanto-juvenis (“HQB – Teatro Virando Gibi”, “O Chapeleiro Maluco”) ou textos mais propensos a agradar ao grande público (“Coisas Estranhas Acontecem Nessa Casa”), agora investe em um personagem difícil e nebuloso. Um homem brutalizado pela vida e pela falta de oportunidades, mas tenro no coração. O ator acerta ao dosar truculência com certa suavidade no humor, investe em um sotaque adequado e consegue arrancar simpatia do espectador, mesmo em meio às virtudes questionáveis.

“O Bosque Soturno” tem ainda uma iluminação primorosa de César Pivetti e Vânia Jaconis, criando uma ambientação sombria de lâmpadas e lanternas que se alternam. A montagem tem a assinatura elegante de Otávio Martins, que sabe calcular muito bem o ritmo das cenas e a dosagem do humor. O diretor também é hábil em conseguir extrair o melhor do elenco. Os atores deixam suas zonas confortáveis e investem em registros mais incisivos e poderosos. Uma montagem sofisticadamente feroz e vibrante, que merece ser vista.

“O BOSQUE SOTURNO”

Teatro EVA HERZ, na Livraria Cultura da Avenida Paulista.

Ingressos a partir de R$ 20 pelo ingressorapido.com.br

5as e 6as, às 21 horas.

Somente até 24/3/17!

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