“Mulher Invisível”: Monólogo narra as angústias de uma mulher esquecida pela vida.

Por Cristiano Ayres.

Estreou no dia 23 de novembro o espetáculo “A Mulher Invisível”, com a atriz Catarina Abdalla em seu primeiro monólogo. Trata-se de uma montagem inédita, sob a direção de Amir Haddad, texto de Maria Carmem Barbosa, idealizada por Miguel Colker, dramaturgia de Érida Castelo Branco, cenário de Fernando Mello da Costa, figurino de Pedro Sayad, luz assinada por Aurélio de Simoni e afinada trilha sonora de Alessandro Persan.

FOTO: Ricardo Diniz.

FOTO: Ricardo Diniz.

A peça narra as agruras sofridas por Eunice, uma faxineira que trabalha em uma loja de artigos masculinos, durante a madrugada. Ela tem uma família desestruturada, filhas problemáticas, além de um marido ausente e que não gosta de trabalho. Numa determinada noite, é obrigada a atravessar um tiroteio na comunidade onde mora para chegar ao trabalho. Uma situação, infelizmente, ainda muito recorrente na atualidade. Este tiroteio pode ser interpretado como uma metáfora para as adversidades que tantas mulheres suportam em seus conturbados cotidianos. Ela é uma mulher castigada pela vida e tem uma família em ruínas, cujo único “companheiro” é o manequim da loja que limpa.

Ainda com toda dificuldade, Eunice não desiste de cumprir sua jornada noite adentro e chega ao seu local de trabalho transtornada e cansada, porém, não menos entusiasmada em iniciar mais uma noite de labuta, chegando a entoar a clássica marchinha de carnaval “Saca Rolha” para espantar a tristeza e se entregar ao trabalho.

A solidão da personagem é tamanha que as circunstâncias a levam ao desabafo com o manequim da loja onde trabalha. Eunice percebe que está em melhor companhia diante da frieza de um boneco do que com seus próprios familiares. Ela canta, dança, ri, faz piada de si mesma, reclama do marido encostado e das filhas. É como se seu ambiente de trabalho se transformasse num divã no decorrer daquela noite. Embora passe por vários percalços, Eunice conserva a alegria contagiante de quem supera todos os desafios.

Durante a peça, Eunice lembra-se de sua infância, do afeto de sua mãe, dos carnavais de outrora, dos doces de São Cosme e São Damião e de como era bom andar na rua num tempo em que a violência não era avassaladora.

Catarina Abdalla soma mais de 30 anos de carreira artística. Estreou na televisão como a clássica personagem Cuca na série “Sítio do Picapau Amarelo” e a interpretou por cinco anos consecutivos. Ainda nos anos 80, fez sucesso com a divertida Ronalda Cristina de “Armação Ilimitada”. Também participou de novelas memoráveis como “Vereda Tropical”, “A Indomada” e “Senhora do Destino” (em reprise no ‘Vale a Pena Ver de Novo’), dentre outras. Atualmente, ela vive Dona Jô, proprietária da pensão em que se passa a trama do humorístico “Vai que cola”, exibido pelo canal Multishow.

A atriz, através de seu carisma, humor e simpatia, consegue dar veracidade a esta mulher tão próxima da realidade brasileira. “Eunice trabalha fora a madruga inteira e durante o dia ela faz os serviços de casa. Às vezes, ela encosta um pouco para cochilar e, assim, vai levando a vida nesse lugar invisível. São esses invisíveis que constroem o mundo.”, destaca Catarina Abdalla. O espetáculo toca em um ponto sensível: a invisibilidade social que faz com que certas atividades sejam consideradas “menores”, como no caso da personagem que faz faxina. Além disso, no enredo, Eunice é invisível aos olhos da família, o que é ainda pior.

“A gente quando não ri, a alma fica escura.”, frase proferida pela personagem, enquanto desabafa com o manequim da loja. Eunice carrega consigo a inteligência da sabedoria popular e é com ela que resolve os problemas que enfrenta.

“Ela é um monte de mulheres que vemos toda hora na rua. Tem muitas mulheres brasileiras que conheço que trabalham de manhã, de tarde e de noite e, frequentemente, têm um marido grosseiro e violento. Elas mantêm marido, filhos e casa. Quantas famílias vivem essa situação!”, define Amir Haddad.

A personagem é uma mulher do povo, muito sofrida, porém, com o coração cheio de ideias românticas. “Meu coração já ardeu tanto, que eu pensei que fosse incendiar.”, diz a personagem. A despeito de todos os dissabores que enfrenta, Eunice não perde o bom humor, suporta os trancos da vida com bravura e não perde a esperança. “A Mulher Invisível” tem o mérito de representar tantas mulheres que, assim como a personagem, podem parecer invisíveis, mas tem seu lugar no mundo.

 

“MULHER INVISÍVEL”, de Maria Carmem Barbosa

Teatro Nelson Rodrigues (Av. República do Chile, 230 – Centro – Rio de Janeiro)

Com Catarina Abdalla.

Direção: Amir Haddad.

De Quinta a Domingo, às 19h

Ingressos Plateia: R$40 (inteira) e R$20 (meia) / Balcão: R$30 (inteira) e R$15 (meia)

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Somente até 17/12/2017!

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