“Moléstia”: Joia rara do teatro carioca, suspense ganha nova temporada no Teatro Gláucio Gill

Por Redação

Um dos melhores espetáculos em cartaz no Rio de Janeiro, “Moléstia”, peça que aborda o abuso infantil, volta à cena carioca no Teatro Gláucio Gill, em Copacabana (ao lado do metrô Arcoverde), após duas exitosas temporadas em 2018. ​Escrita por Herton Gustavo Gratto e dirigida por Marcéu Pierrotti, a peça – que se utiliza de recursos da linguagem cinematográfica – fica em cartaz somente até o dia 6 de maio e traz especialistas sobre o tema para debates após as sessões de domingo​.

FOTO: Filipe Leon

FOTO: Filipe Leon

O casal Breno e Mabel hospeda em sua casa Cadu, amigo de longa data, dando oportunidade para aprofundarem suas relações dúbias de amizade e atração física. Mas a confiança entre eles é quebrada quando o casal descobre que seu filho Thiago foi abusado sexualmente. Todos os indícios apontam para Cadu, disparando um agressivo jogo de manipulação que revela as sombras, melindres e julgamentos das personagens e da criação do filho. A peça traz no elenco o ator Ciro Sales (apresentador do ​Catfish Brasil​, na MTV, e o Du Love da novela ​Segundo Sol​, na TV Globo) na pele de Cadu, em uma composição que reforça o carisma e a dubiedade do personagem. Camila Moreira (de “​O tempo e os Conways”​, dirigida por Vera Fajardo) e Felipe Dutra (de ​”Hanokh”​, dirigido por Isaac Bernat) dão vida ao casal Mabel e Breno, marcados por uma relação desgastada e pela demanda de um filho autista. ​”Pais ausentes, Breno e Mabel, vivem um relacionamento destrutivo. Cadu é um contraponto à essa relação, pois desperta neles uma sexualidade adormecida, ao passo que desenvolve com Thiago uma parceria de afeto e confiança”,​ diz Ciro Sales. O quarteto se completa com Déborah Figueiredo (de ​”Salém”​, dirigida por Rodrigo Portella), que faz a Madre Superiora do colégio onde estuda Thiago, onde o abuso foi identificado.

FOTO: Bernardo Santos

FOTO: Bernardo Santos

As relações entre os quatro vão se revelando e se desdobrando a cada cena, que subvertem o eixo temporal: a trama se desenrola em dois tempos, alternando instantes de passado e de presente em uma encenação que coloca a ação muito próxima à plateia, envolvendo o público numa eletrizante experiência de tensão pelo que acaba de ver e curiosidade pelo que está por vir. No espaço cênico, estruturado em semi arena, os atores modificam o cenário, manipulando a cena a fim de gerar novas perspectivas ao espectador. Dessa maneira, o público é convocado a testemunhar não apenas a história contada, mas também a beleza e os ruídos da engrenagem teatral que se desvela no palco.

Molestia_145_Foto Bernardo Santos

“Moléstia” foi o primeiro texto do jovem e promissor dramaturgo Herton Gustavo Gratto a ter uma montagem em cartaz na cidade. Em seguida, outros três textos seus foram encenados, revelando a potência da obra e a proficuidade criativa de Gratto. Para Marcéu Pierrotti, ​”o ponto chave do texto de Herton Gustavo é a abertura que ele oferece para um jogo de acusações sem provas, a partir de um tema que exige atenção. Todos ali podem ser culpados e suas responsabilidades são desmascaradas ao longo do espetáculo”​, revela o jovem diretor. Que, aliás, também estreou com este trabalho a sua primeira direção.

A encenação de Marcéu é enriquecida pelo aprofundamento da pesquisa de imbricação das linguagens cênica e cinematográfica que iniciou durante sua graduação em direção teatral pela Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ, e que traz pro espetáculo um instigante jogo de captação de imagens e projeção audiovisual em tempo real, através de equipamentos operados pelos próprios atores em cena. Todo esse aparato desvela para o público novas camadas e pontos de vista da história ​– que poderiam ser do personagem ausente, o filho Thiago ​– e que reforçam a dramaturgia. ​”A câmera se oferece para ampliar as evidências, trazendo uma múltipla perspectiva para a plateia. O público é incitado a criar seu próprio julgamento, escolhendo qual narrativa quer seguir – tela ou palco – e fazendo a sua própria edição da história”,​ avalia o diretor.

Por este perfil, a peça estreou a convite da própria UFRJ, em junho de 2018, na ocasião da “Mostra Mais”, com sessões lotadas e a demanda uníssona por uma temporada na cidade, que aconteceu no Reduto, charmoso casarão em Botafogo inaugurado por Fernando Libonati e Marco Nanini, com sessões extras todos os dias. O êxito dessa primeira levou a uma nova temporada, em outubro, no Teatro Gláucio Gill, importante palco da cidade, a convite da Secretaria de Estado de Cultura/FUNARJ. Novamente, a boa aceitação do público e o interesse de pessoas dos mais diversos extratos sociais levou a equipe realizadora a propor mais uma temporada ao mesmo Teatro Glaucio Gill – que acontece agora, oferecendo ao projeto mais visibilidade e maior acesso ao público.

Nesta terceira temporada, se manterá a ação complementar já realizada em outras oportunidades: encontros semanais com convidados após a sessão para a discussão, com participação da plateia, dos temas abordados pelo espetáculo. Nesta sexta-feira, dia 19 de abril, o bate-papo será com a juíza Andréa Pachá e no domingo, com a defensora pública Eufrásia Maria. Essa atividade é coordenada por Sandra Levy, ​coordenadora do Núcleo de Depoimento Especial de crianças e adolescentes (NUDECA) e psicóloga no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Pós-graduada em Psicologia Clínica pela UERJ e especialista em escuta de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência e abuso sexual, Sandra mediará os debates com a participação de convidados que ela trará a cada semana, para enriquecer a experiência de fruição e potencializar a capacidade de reflexão que este trabalho oferece. Afinal, o teatro pode expandir os seus efeitos e promover necessárias transformações sociais, a partir de sua capacidade de sensibilizar e provocar debates.

“Moléstia”

Dramaturgia: Herton Gustavo Gratto
Direção: Marcéu Pierrotti
Elenco: Ciro Sales, Camila Moreira, Deborah Figueiredo e Felipe Dutra

Figurino: Ticiana Passos
Iluminação: Francisco Rufino

Teatro Glaucio Gill (Praça Cardeal Arcoverde, Copacabana)
Sextas, sábados e segundas às 21h e domingos às 20h

Duração: 50 minutos
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)

Lista amiga no queroiraoteatro.com.br : R$ 22

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