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Mezzo soprano do Theatro Municipal do Rio de Janeiro é a convidada de honra da estreia do #INCITARTE Musical.

Estreia hoje o #INCITARTE Musical, um programa apresentado por Paulo Fernando Góes e dirigido por Júlio César Martins onde as maiores estrelas do Teatro vão interpretar canções da Broadway, de espetáculos brasileiros ou árias de óperas. E para começarmos em grande estilo, convidamos a diva Carla Odorizzi, mezzo soprano do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e presença constante nos luxuosos musicais da Casa de Cultura Julieta de Serpa. Recentemente, Carla brilhou no espetáculo “Vai Resplandecer”, onde caiu nas graças do público interpretando a grande Clara Nunes. Para a estreia do #INCITARTE Musical, a música escolhida por Carla é “Habanera”, da célebre ópera “Carmen”, de Bizet.

 

 

Leia a entrevista e, em seguida, assista ao vídeo para se emocionar com a voz e a interpretação de Carla Odorizzi.

 

#INCITARTE – Sua mãe é soprano e você estudou música por influência dela. Você acha que teria seguido carreira no canto lírico da mesma forma sem a influência dela?

 

CARLA ODORIZZI – Certamente não porque minha primeira opção era o teatro. Sempre soube que queria fazer teatro e aos 13 anos minha mãe me perguntou: “É isso mesmo que você quer fazer?”. E como ela sempre fez, buscou me dar a melhor formação. Fui para a Escola Martins Pena. Eu ADORAVA, sobretudo as peças de Nelson Rodrigues. Mas a vida deu suas voltas e acabei conhecendo o tenor Sergio Lavor, o professor de canto dela. Eu tinha 14 anos. Ela me orientou a ter aulas de canto para melhorar minha capacidade expressiva no teatro. Porém, me encantei com as aulas desse professor que até hoje continua me orientando. A partir daí, me aprofundei no estudo do canto. Cursei a faculdade de música por influência direta dela, que além de ter uma linda voz, era uma grande musicista, tocava piano e violino, fazia arranjos vocais e instrumentais para os diversos coros que regeu.

 

#INCITARTE – Ao longo da sua carreira, você deve ter conhecido muitos talentos que nunca foram reconhecidos e nem são bem remunerados. Ao passo que, no Brasil, muitos enriquecem e fazem sucesso com músicas de gosto duvidoso. A que você atribui esse cenário e como mudá-lo?

 

C.O. – Existem dois universos que caminham paralelos no mundo da música e do teatro musical: um é o artistico e o outro é o do negócio. São dois mundos que nem sempre andam em harmonia e que muitas vezes caminham em direções opostas. É muito importante que o artista tenha consciência disso para que possa traçar metas que sejam possíveis dentro da realidade destes mundos. O melhor dos mundos é quando você se identifica com um projeto artístico que, ao mesmo tempo, seja comercialmente viável, tenha boa aceitação do público, seja bem recebido pela crítica especializada e com boa divulgação nas mídias. Mas quando não tiver esse privilégio, é importante que o artista saiba o que o momento pode oferecer. Às vezes, é uma oportunidade de ser bem remunerado, outras, é a de se dedicar em determinado repertório e ainda outras vezes, é a simples oportunidade de estar trabalhando. Muito importante é tentar entender quais são suas reais possibilidades dentro do mercado e buscar os nichos onde se sinta mais representativo. Que tipo de voz eu tenho? Que tipo físico? Que tipo psicológico? Para isso, é importante estudar, estudar e estudar. Música, dança, história do teatro, canto, interpretação, tornar-se cada vez mais apto a descobrir e ser descoberto. Importante também é aprender a produzir espetáculos, mesmo que muito modestos, eles serão sempre a criação de um espaço muito mais pertencido ao artista que produz.

 

Carla Odorizzi: “Falar não basta para expressar a emoção. É preciso cantar a vida!”

Carla Odorizzi: “Falar não basta para expressar a emoção. É preciso cantar a vida!”

#INCITARTE – Paulo Szot, o barítono brasileiro que ganhou um Tony em New York, veio do canto lírico e esteve em cartaz recentemente com “My Fair Lady”, em São Paulo. Por quê não é comum artistas da ópera transitarem no universo do teatro musical?

 

C.O. – Acredito que uma das causas é a tremenda especialização de todas as atividades em todas as áreas do conhecimento. O teatro musical e a ópera não são excessões. E com isso, os mundos que antes se misturavam mais, acabaram criando suas próprias regras, evoluindo suas linguagens particulares e aumentaram as distâncias entre si. Mas a natureza primária da ópera e do musical permanece e essa raiz única do canto aliado à palavra que estão tanto no lírico quanto no musical, faz com que, inexoravelmente, ópera e musical se reencontrem, mais cedo ou mais tarde. É o caso maravilhoso desse artistaço brasileiro, Paulo Szot, que reafirma essa ideia de que, no fundo, ópera e musical são generos muito mais afins do que antagônicos. As fronteiras são abertas e se há diferenças entre esses dois gêneros, estas são tão somente aspectos específicos que mostram a riqueza das possibilidades estéticas dessas criações do gênio humano, onde falar não basta para expressar a emoção. É preciso cantar a vida!

 

#INCITARTE – Você se formou no conservatório brasileiro de música e se especializou na Itália. O estudante de música brasileiro é tão disciplinado quanto o europeu?

 

C.O – Ele será tão disciplinado se tiver as oportunidades que o europeu tem. Os europeus, em sua maioria, tem educação musical desde cedo, além de terem acesso aos bens culturais e sócio-políticos muito mais democratizados. O estudante de música no Brasil, além de sofrer o preconceito de estar estudando “coisa que não dá dinheiro”, ele tem lacunas em sua formação, já que as escolas de arte no Brasil sofrem com a falta de apoio, seja do governo, da sociedade e muitas vezes, até mesmo da própria família. Por outro lado, o estudante brasileiro é criativo, improvisa bem e tem uma graça e vivacidade naturais, coisas tão caras ao universo da arte.

 

#INCITARTE – Os artistas que tiram seu sustento do próprio canto estão acostumados a viver “na corda bamba”. Você faz parte do elenco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro desde 2001, selecionada por concurso público. A segurança da funcionária pública te coloca na zona de conforto, negativamente falando?

 

C.O. – Às vezes sim, às vezes não. Foi por ter a segurança de ser uma artista concursada que eu pude me arriscar em outros projetos artísticos em minha vida. A experiência que o teatro municipal constantemente me proporciona através do contato direto com grandes artistas, me dá uma dimensão muito mais ampla do que um artista que não tenha essa experiência diária de estar num palco gigantesco ao lado de cantores, bailarinos, musicistas, diretores, iluminadores, figurinistas, cenógrafos e técnicos que realizam espetáculos no mundo todo. O teatro municipal é um teatro da chamada alta cultura, sem nenhum pedantismo nessa expressão que traduz fielmente a sua vocação. Isso me permitiu criar um patrimônio que pouquíssimos artistas possuem. E que será sempre um grande diferencial em minha arte. Algumas vezes, os compromissos assumidos com o teatro municipal não me permitem participar de temporadas fora do Rio. Enfim, perdas e ganhos, mas parece que até o momento, ganhei muito mais do que perdi.

 

#INCITARTE – Você é casada com Fernando Portari, o maior dos tenores brasileiros e um dos maiores do mundo. Ele também cobra da cantora em casa ou é apenas mais um fã?

 

C.O. – Ele sempre fica constrangido quando o elogiam dessa maneira mas concordo plenamente com você! Ele é os dois ao mesmo tempo. Sabe ser o fã incondicional e é o severo crítico. Mas sabe separar os momentos de cada papel com clareza e, no final, acaba sendo mais do que tudo, um grande parceiro de aventura. O melhor é quando a gente pode confiar no coração do outro e aí tudo é aprendizado, diversão, arte e trabalho ao mesmo tempo. A relação é de confiança, não só eu confio na opinião do grande cantor e na paixão de meu grande amor, mas também ele em mim, confia em minha visão sobre a profissão, a arte e o sonho.

 

#INCITARTE – Na Casa de Cultura Julieta de Serpa – apesar de todo o luxo que o ambiente traz – você esteve em cartaz com espetáculos mais populares, como “Vai Resplandecer”, onde você vive Clara Nunes. Onde você se sente mais confortável, na ópera ou no teatro musical?

 

C.O. – Mais do que o gênero, é o projeto que nos aproxima ou afasta de um trabalho. Sou muito feliz e privilegiada de estar apta a cantar tantos gêneros musicais. E ADORO essa versatilidade. Não há tédio, definitivamente, em minha vida musical! [Risos] Cantar no ambiente requintado da Casa Julieta de Serpa e, sobretudo, ser tratada com todo amor e carinho pelo professor Serpa e sua esposa, dona Beth Serpa, que aliás, faz todos aqueles deslumbrantes figurinos das produções da Casa, é uma experiência muito rara. ADORO estar lá, é minha casa, é meu povo, é minha família. Estou lá desde o primeiro musical da Casa, “Ontem, Hoje e Sempre, Um Chá de Carnaval”, que ajudei a criar, entre tantos outros espetáculos de grande sucesso. Me sinto muito orgulhosa de fazer parte dessa casa de sonhos desde o seu início e minha paixão pela Casa Julieta de Serpa e seus visionários idealizadores, o professor Serpa e dona Beth Serpa, é o que podemos chamar de uma história de amor incondicional!

 

#INCITARTE – Com que diretores você gostaria de trabalhar?

 

C.O. – Com a dupla Charles Möeller e Claudio Botelho, Miguel Falabella, Daniel Herz, João Fonseca, Jorge Takla, Lívia Sabag, Caetano Vilela… Artistas que eu admiro pela trajetória sólida e que sempre me sugerem grande paixão pelo que fazem.

 

#INCITARTE – Que personagem você ainda gostaria de fazer?

 

C.O. – Carmen, Anita de “West Side Story”, Victor em “Victor ou Vitória”, Joana em “Gota D’Água” e Rosina em “O Barbeiro de Sevilha”.

 

Clique no vídeo e assista Carla Odorizzi cantando “Habanera”, de Carmen.

 

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