Entrevista LEO WAGNER: Quando os covers têm a chance de brilhar.

Por Paulo Neto.

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DESAFIO DUPLO: Léo reveza-se nos dois principais papéis masculinos de “Les Misérables”, em cartaz no Teatro Renault, em São Paulo.

Covers são atores substitutos que podem estar no ensemble (ou não) e têm que estar preparados para entrar em cena na ausência do titular. Normalmente, um cover assume apenas um papel alternativo. Mas o vigoroso Leo Wagner assume os dois papéis protagonistas na nova montagem de “Les Misérables”: o mocinho e o vilão. Há alguns dias, brilhou incessantemente na pele de Jean Valjean, assumindo o lugar do espanhol Daniel Diges. Tal feito (o de ser tão competente ou até superior ao titular) já foi executado por Danilo de Moura em “Tim Maia”, Josi Lopes em “Mudança de Hábito”, Paula Capovilla em “Mamma Mia” e Corina Sabbas em “Fame”.

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“COVER, PRA VARIAR (RS)”: Em rede social, ator brinca com sua experiência como cover e posta foto com Olívia Branco, a Grizabella de “Cats”.

Leo Wagner iniciou sua carreira em teatro musical aos 19 anos. Ator, cantor e bailarino com formação nas três áreas, sua estreia foi na primeira montagem de “My fair Lady”, de Jorge Takla, em 2007. Participou das montagens brasileiras de “West Side Story”, “A Noviça Rebelde” e “Cats”. Em “Evita”, interpretou o cantor de tango Agustín Magaldi. Em “Cabaret”, foi cover do personagem MC. Em “Priscilla – A Rainha do Deserto” teve a oportunidade de ser o cover de Tick. Brilhou também em “Como vencer na vida sem fazer força”, “Elis, A Musical”, “Se Eu Fosse Você – O Musical”, “Kiss Me, Kate – O Beijo da Megera” e “Wicked”. Uma carreira vibrante para um artista tão completo que, sem dúvida, ainda surpreenderá público e crítica com seu talento inegável.

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FOTO: Rodrigo Negrini.

#INCITARTE – Em Les Misérables você está capacitado para viver o mocinho sofredor (Jean Valjean) e o vilão autoritário (Javert). Quais as diferenças de preparação entre os dois? Como você encara este duplo desafio?

LEO WAGNER – Eu acho interessante porque tanto Valjean como Javert, foram inspirados por Victor Hugo pelo mesmo homem, Eugene François Vidocq, que começou a vida fugindo da prisão e trabalhando durante anos como dono de uma fábrica e empresário mas, com o passar do tempo, acabou se juntando às autoridades na perseguição e captura de outros criminosos. Então, a grande diferença está principalmente no momento em que os dois estão vivendo na peça. Mas, de fato, eles tem muitos aspectos semelhantes. Tecnicamente falando, a questão física do Valjean, prisioneiro por 20 anos, quase um animal enjaulado, depois mais maduro, seu disfarce como prefeito e sua velhice, tem um trabalho físico intenso, levando sempre em conta sua força extraordinária. Já Javert, tem uma postura sempre austera, que precisa refletir tanto na sua postura física quanto vocal. O mais importante para encarar esse desafio duplo é estar com o corpo e a voz 100% preparados para mudar de um pro outro.

#INCITARTE – Como fica o coração do ator quando ele entra no ensemble e tem a oportunidade de assumir o protagonista?

L.W. – Só é menos assustador quando a gente já tem a certeza de que vai entrar pra fazer, quando se tem a oportunidade de fazer muitas sessões fica mais tranquilo.

#INCITARTE – Em “Evita”, houve uma evolução sua como artista ao interpretar Agustín Magaldi. Houve um momento específico da sua carreira que você percebeu que poderia ir além do ensemble?

L.W. – Com certeza, acredito que Evita foi mesmo o ponto onde senti isso.

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Ao centro, Leo Wagner como AugustÍn Magaldi, em “Evita”, com direção de Jorge Takla. FOTO: João Caldas.

#INCITARTE – Quais personagens do teatro musical você sonha interpretar?

L.W. – Depois de Valjean e Javert, a gente se pergunta: “Caramba, quero mais o quê?” [Risos] Mas tem tantos personagens incríveis e icônicos, o Fantasma, do Fantasma da Ópera, seria um deles. Outro que seria incrível é a Senhora Trunchbull, a diretora ranzinza de Matilda, que é interpretada por um homem [Risos].

#INCITARTE – Você tem habilidades como bailarino, cantor e ator. O que lhe causa mais prazer?

L.W. – Enquanto eu estudava e já até trabalhava como cantor, músico, bailarino e ator, sempre me sentia incompleto enquanto artista, parecia que estava faltando alguma coisa. Quando fiz meu primeiro musical [My fair Lady, em 2007, de Jorge Takla], entendi que eu sou um ator de musical, amo fazer as três coisas. Se fosse obrigado, acho que aí sim, ficaria com a música porque foi onde tudo começou pra mim.

#INCITARTE – Quem são seus ídolos do teatro musical brasileiro?

L.W. – Meus ídolos, meus amigos, minhas referências. Daniel Boaventura, Paula Capovilla, Fred Silveira, Sara Sarres e tantos outros, mas esses que eu citei foram pessoas que no começo da minha carreira sempre foram positivas, parceiros e incentivadores.

#INCITARTE – O trabalho do ator substituto (sub ou cover) em musicais brasileiros tem sido cada vez mais admirável. Em alguns casos, o cover chega a ser superior ao titular. Como você encara o desafio?

L.W. – Ser cover é talvez a tarefa mais dificil no teatro musical, porque além de desenvolver o seu trabalho, você precisa ficar atento a todo o trabalho do personagem que você vai cobrir e, provavelmente, vai estrear sem ter ensaio, ou seja, tem que fazer lição de casa, muita lição! [Risos.] No Les Mis, por exemplo, além das 10 horas de ensaio diárias, eu chegava em casa todos os dias e passava pelo menos mais uma hora revendo as marcas e direções dos outros personagens. Tudo isso para que quando você entre em cena cobrindo, não deixe que o público perceba suas possíveis inseguranças.

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DOBRANDO PERSONAGENS: Como o professor bode de “Wicked”…

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…e como o Mágico de Oz, no mesmo espetáculo. FOTO: Rodrigo Negrini.

#INCITARTE – Você prefere fazer parte de musicais ‘replica’ (onde você tem que seguir à risca a cartilha original) ou ‘non-replica’ (onde há chances para uma criação mais livre)?

L.W. – Eu não ligo, já participei dos dois processos e existem pontos positivos e negativos nos dois. Contanto que tenha inspiração no processo, me divirto nos dois.

#INCITARTE – Que diferença você sente entre o público carioca e o paulistano ao assistir a um musical?

L.W. – Acho que a maior diferença está no tipo de musical que agrada mais ao público carioca e do tipo de musical que agrada mais ao público paulista. De uma forma generalizada, são gostos um pouco diferentes, nem melhor ou pior, apenas diferentes.

#INCITARTE – Em qual aspecto técnico ou dramático as montagens brasileiras precisam evoluir?

L.W. – Tecnicamente, as produções, de uma forma geral, precisam ganhar profissionalismo em todos os âmbitos, desde a contratação até o espetáculo que está sendo apresentado. Temos três ou quatro produtoras que conseguem, o ideal seriam que tivéssemos muito mais, para que a “competitividade” ajudasse a elevar todo o restante. Na dramaturgia, acho que ainda não conseguimos encontrar um jeito sólido de fazer o nosso teatro musical mas é notório nosso avanço. Mas esses são os meus pontos de vista, tenho certeza que não é o mesmo de muitos.

#INCITARTE – Que musical ainda não montado no Brasil deveria ser trazido?

L.W. – Uau, acho que essa é a pergunta mais dificil, por que tem tantos bons! Eu amo Matilda, Young Frankstein, The Book of Mormon, The Colour Purple, muitos mesmo e realmente acho que seriam musicais que o público brasileiro iria amar ver.▪️

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