ENTREVISTA: Julia Bobrow, do Satyros, conta sobre seus mergulhos dramáticos e sua paixão pelo Teatro.

Por Paulo Neto.

A paulistaníssima Julia Bobrow transpira paixão pelo teatro. Em sua família (de origem polonesa) é a única atriz. Formada pela escola Célia Helena, chamou atenção dos críticos e do público pela primeira vez há 10 anos, com a peça “Rosa De Vidro”, escrita por João Fábio Cabral, na qual interpretava a poética Rose, irmã de Tennessee Williams, uma jovem delicada e encantadora às voltas com uma internação psiquiátrica. Em seguida, ingressou no grupo Satyros de teatro, onde formou sua segunda família e onde está até hoje. Com este fabuloso grupo atuou em espetáculos premiados como “Roberto Zucco”, “Pessoas Perfeitas” e “Pessoas Brutas”. A cada novo personagem, cresce e se amplia como intérprete. Seu último e arrojado trabalho, a turbulenta Disneilândia de “Pessoas Brutas”, comprova seu talento e sua disposição para interpretar mulheres destemidas. Conhecida pelo seu amor aos animais, escreveu o livro “Desistir Nunca Foi Uma Opção”, uma linda homenagem a sua filha Mocinha, uma adorável pet que faleceu de problemas motores. Na entrevista a seguir, Julia fala sobre teatro, dramaturgia e como construiu seus personagens.

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#INCITARTE – Há quase 10 anos você me arrebatou profundamente com uma atuação impecável no inesquecível espetáculo “Rosa De Vidro”, de João Fábio Cabral, baseado em memórias de Tennessee Williams. O que Rose (uma menina com poéticas turbulências psiquiátricas) significou pra você nesta bela caminhada que realizou como atriz?

JULIA BOBROW – Rose tem um lugar especial no meu coração. Eu tinha acabado de me formar no Célia Helena e resolvi colocar a cara pra bater e produzir uma peça, em vez de esperar que alguém me chamasse para trabalhar. Adoro os textos do Tennessee Williams e sua biografia também é incrível. Aí surgiu a ideia, junto com o diretor Ruy Cortez, da peça sobre a vida de Tennessee e sua irmã Rose, que foi vitima de uma lobotomia pré-frontal. Chamamos o João Fabio Cabral para escrever o texto e foi a escolha certa. Foi um processo muito intenso. Pesquisei muito sobre esquizofrenia e fiz laboratório. Diria que tive uma conexão de alma com a Rose. A gente estreou a peça sem nenhuma pretensão, e, para nossa surpresa, foi um grande sucesso. Até hoje as pessoas me perguntam “você que fazia ‘Rosa de Vidro'”? E não vou mentir, adoraria voltar com a peça, mas talvez seja só um sonho.

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#INCITARTE – Seu encontro com o grupo Satyros lhe trouxe, além da progressão do ofício de atriz, uma espécie de segunda família. Quais peças com o grupo lhe trouxeram maior realização? E como é essa relação tão familiar com eles?

J.B. – Tenho carinho por todas as peças e personagens que fiz. Mas as que eu mais gostei de fazer foram “Roberto Zucco” (personagem Menina), “Pessoas Perfeitas” (personagem “Medalha”) e “Pessoas Brutas”(personagem Disneilândia). O Satyros é como minha segunda família mesmo. Ao mesmo tempo que a gente consegue ser muito sério na hora do trabalho, existe uma intimidade que acho que só acrescenta. E fora do trabalho, meus melhores amigos são do Satyros mesmo.

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#INCITARTE – Em “Pessoas Brutas”, atualmente em cartaz, você vive a Disneylândia, uma mulher insólita, boçal, imprevisível e cruel, cuja doçura e humor aparecem nos formatos de canções. Há um mergulho mais ousado e uma entrega mais destemida na atuação. Como foi a construção do gestual e da voz gutural e grosseira da Disneylândia?

J.B. – Muito obrigada! Sinto que a cada trabalho eu consigo me jogar mais como atriz, sem ficar me julgando ou pensando o que os outros vão pensar. A intimidade e confiança que tenho com o diretor Rodolfo Garcia Vazquez também me ajuda muito. A construção da Disneilândia foi inspirada nos relatos do meu parceiro de cena, Junior Mazini. Ele me contou de várias mulheres que costumavam frequentar a cadeia (ele é ex-detento) e fui me guiando a partir daí. A voz e o corpo da Disneilândia foram surgindo ao longo dos ensaios.

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#INCITARTE – Seu amor pelos animais é nacionalmente conhecido e comove pela honestidade dos sentimentos. Tem vontade de trabalhar em algum texto que aborde esse afeto tão incondicional, também no terreno da ficção?

J.B. – Claro que sim, a gente sabe que a arte pode educar e que a desinformação é o inimigo comum de todas as causas sociais. No caso dos animais, não é diferente. No caso do amor pelos animais, a sociedade teima em distorcer e fingir que não é sério ou relevante, mas assim como a cultura salva e os esportes salvam, os animais também salvam. Esse amor pelos animais define um monte de gente como eu e é por isso que em algum momento levarei pra ficção esse afeto.

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#INCITARTE – Quais personagens da dramaturgia mundial tem vontade de viver? Há uma inclinação por textos brasileiros ou existe também espaço em seus planos para autores estrangeiros?

J.B. – Sempre tenho vontade de viver o personagem que estou ensaiando no momento. Agora só consigo pensar na “Äleteia” que farei na próxima montagem do Satyros, “Os Baldios”. Mas tenho muita vontade de montar uma peça da Sarah Kane.

FOTO: Andre Stefano.

FOTO: Andre Stefano.

#INCITARTE – Seu talento e sua luz deveriam irradiar na tela grande. Com quais diretores de cinema gostaria de trabalhar?

J.B. – Quero muito fazer cinema. Admiro tantos diretores. Seria uma honra trabalhar com Anna Muylaert, Laís Bondanzky, Jorge Furtado, Heitor Dhalia e os novos talentos Gabriel Alvim e Dida Andrade. Ah, e claro, Ivam Cabral e Rodolfo Garcia Vazquez, que agora estão se aventurando no cinema também.

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