CRÍTICA TEATRAL: “HEBE – O Musical” tem cativante atuação de Débora Reis, é visualmente arrojado, mas musicalmente, insípido.

Por Paulo Neto.

O Brasil é, possivelmente, o único país do mundo que produz espetáculos musicais sobre apresentadores de televisão. Podem esperar, nos próximos anos, teatro musical homenageando Sílvio Santos, Mara Maravilha, Xuxa, Luciano Huck e até Palmirinha.

Há três anos, trouxeram à tona o fraco “Chacrinha”. Está em cartaz o desnecessário “Vamp – O Musical”. E desta vez, as honras são para Hebe Camargo, que dispensa apresentações, mas o espetáculo conta, por A + B, de onde ela saiu, quais caminhos percorreu, com quais homens se casou e até onde conseguiu chegar com seu talento cativante para auditórios. O carisma de Hebe era inegável, assim como é o talento da atriz Débora Reis, que a interpreta na maturidade. Mas, precisam-se realmente fazer musicais de todas as pessoas talentosas que foram pop, na TV e até no esporte? Para um espetáculo musical, não são as canções que tem que brilhar? De “Chacrinha”, quais são as músicas que ficaram na memória? Nenhuma. Aqui, há alguns solos até bem eficientes e nostálgicos, entoados por Guilherme Magon, Débora Reis e Frederico Reuter, mas, ao final do espetáculo, nenhuma canção vai para casa com você. Também não há uma coesão dramatúrgica que una as músicas de forma coerente e narrativamente complementar. Aqui, as canções não contam nada.

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O texto de Artur Xexéo (sempre mais eficiente em séries de TV como “Pé Na Cova”) é bastante quadrado, fazendo aquele balanço cronológico típico da energética apresentadora. O fato de ter colocado a fã Leonor respondendo às perguntas, como fio condutor, até tenta fugir do óbvio, mas o resultado é convencional, repetindo a mesma fórmula de musicais similares.

A cenografia de Gringo Cardia acerta completamente na escolha do total e arrojado preto e branco do primeiro ato, remetendo à falta de cor das televisões da época. Já a opção pelo art-déco nos backgrounds soa questionável: por que art-déco em todas as décadas, inclusive nos anos 60 e 70? 

Os figurinos de Lígia Rocha e Marco Pacheco são de grande qualidade. O visagismo de Anderson Bueno também é um acerto.

O elenco foi bem escolhido. Débora Reis sobressai-se na pele de Hebe madura: além de ser bem-sucedida no gestual e na forma específica de falar, a atriz também tem ótima voz ao entoar canções. Guilherme Magon e Frederico Reuter interpretam os primeiros maridos. Décio Capuano e Luís Ramos, respectivamente, têm bons solos musicais, mas quase nenhuma química com a protagonista. Já Dino Fernandez, que não chama atenção pela voz, vive um Lélio Ravagnani que exibe total amálgama com Débora. Ambos formam um casal crível e pelo qual o público chega a torcer e vibrar.

Daniel Caldini chama atenção no papel do apresentador do programa de perguntas e respostas, Belo Garrido, e Adriano Tunes recria um adorável Mazzaroppi.

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“HEBE – O Musical” poderia muito bem ser um espetáculo de comédia dramática com algumas canções pontuais e pertinentes. Não precisaria de uma produção tão grande, com profissionais tão numerosos. Apesar da apresentadora ter sido também cantora não é suficientemente plausível que se crie um espetáculo musical calcado em sua trajetória. Uma lente de aumento mais enxuta e poética em sua vida pessoal teria sido mais assertivo. Um bom exemplo é o belíssimo e sucinto “Chanel”, com Marília Pêra, montado em 2004 por Jorge Takla.

“HEBE – O Musical” é um bom entretenimento, bem produzido e com elenco talentoso, mas ficam algumas perguntas nas cabeças dos pagantes: precisamos realmente de musicais sobre Hebe, Chacrinha e Ayrton Senna? Que qualidade artística pode ter um musical baseado numa novela ruim chamada “Vamp”?

Será que daqui a alguns anos os americanos produzirão musicais sobre Ellen DeGeneris, Oprah Winfrey ou o jogador de baseball Michael Jordan? Já imaginaram um musical baseado na série de TV “Stranger Things”? Seria desastroso. Felizmente, fora do Brasil, a indústria ainda tem respeito pelo produto em si e pelo público que comprará os ingressos.

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Foto: Caio Gallucci.

“HEBE – O Musical”

Teatro Procópio Ferreira (Rua Augusta, 2.823 – Cerqueira César, São Paulo – SP)

Quinta e Sexta, às 21h.

Sábado, às 17h e 21h.

Domingo às 18h.

Ingressos de R$ 50 a R$ 190

Até 17/12/2017.

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