“Hamlet”: Montagem celebra os 30 anos da Companhia de Teatro Armazém.

Por Cristiano Ayres.

“Não deixe a Dinamarca se transformar num bordel incestuoso”. Com esta frase do rei Hamlet (vivido pelo talentoso Adriano Garib), logo no primeiro ato, numa projeção em que ele surge como um espectro para o seu filho, o Príncipe Hamlet, o público imediatamente tem a percepção da alta voltagem do espetáculo que está por vir.

O rei Hamlet é assassinado por seu irmão Claudius, que passa a ocupar o trono da Dinamarca e se casa com a cunhada Gertrudes, o que desperta uma revolta colérica no príncipe Hamlet. O rei assassinado pede ao filho que vingue a sua morte e Hamlet, obsessivo, caminha rumo a loucura, deparando-se com questões filosóficas que se desdobram junto à loucura do mundo.

Patrícia Selonk vive o protagonista do clássico de Shakespeare. FOTO: João Gabriel Monteiro.

Patrícia Selonk vive o protagonista da obra-prima de Shakespeare. FOTO: João Gabriel Monteiro.

“Hamlet” é uma excelente escolha para celebrar os 30 anos da formação da Armazém Companhia de Teatro. A direção é de Paulo de Moraes, que também assina a cenografia com Carla Berri, os figurinos de João Marcelino e Carol Lobato, a iluminação de Maneco Quinderé e a música de Rico Viana. A tradução ficou a cargo de Maurício Arruda Mendonça, parceiro habitual de Paulo de Moraes.

Todo o elenco impressiona com interpretações singulares. Patrícia Selonk, acostumada com papéis protagonistas nas montagens da companhia, impressiona pela vigor que imprimiu ao seu Hamlet. O tio/padrasto de Hamlet interpretado por Ricardo Martins está moldado com a grandiosidade que sugere o papel. As cenas de embate entre o príncipe Hamlet e sua mãe Gertrudes são de extrema precisão cênica.

“É importante tratar Shakespeare como se ele fosse um genial dramaturgo recém-descoberto com algumas coisas urgentes a dizer sobre a guerra, sobre a loucura do mundo e sobre nossos líderes políticos modernos”, ressalta o diretor Paulo de Moraes.

O espetáculo teve estreia nacional em junho de 2017, no CCBB Rio de Janeiro, passando por Belo Horizonte, Curitiba, Vitória e, agora, aportando no teatro do SESI. O espetáculo teve 6 indicações aos prêmios Cesgranrio 2017 (incluindo as categorias Melhor Espetáculo e Direção) e 4 indicações ao prêmio Cenym 2017 (incluindo Melhor Atriz).

Com sede no Rio de Janeiro desde 1998, a Armazém Companhia de Teatro consolida seus espetáculos em pesquisas temáticas (com a criação de uma dramaturgia própria com ênfase nas relações do tempo narrativo) e formais (que se refletem na utilização do espaço, na construção da cenografia, ou nas técnicas utilizadas pelos atores para conviver com o risco de encenar em cima de um telhado, atravessando uma fina trave de madeira ou imersos na água), a questão determinante para a companhia.

A companhia traz em seu repertório peças bem sucedidas tais como “Inveja dos Anjos” e “A Marca da Água” que levaram o Prêmio Shell de Melhor Autor em 2008 e 2012, além de “O Dia em que Sam Morreu”, Prêmio Cesgranrio de Melhor Texto em 2014.

Cobiça, ira, manipulação dos sentimentos alheios, sexualidade, traição e loucura integram o universo de “Hamlet”. O poder de alcance e reflexão da obra-prima do bardo inglês atravessa o tempo e o espaço por séculos e a montagem do Armazém faz o texto parecer ainda mais atual do que sempre.

 

“HAMLET”, de William Shakespeare.

Teatro SESI (Av. Graça Aranha, 1 – Centro, Rio de Janeiro)

Com Patrícia Selonk, Ricardo Martins, Marcos Martins, Lisa Eiras, Jopa Moraes, Isabel Pacheco e Luiz Felipe Leprevost.

Direção: Paulo de Moraes

De 09 de novembro a 9 de dezembro

Ingressos: R$40,00 (inteira), R$20,00 (meia)

Quintas e sextas, às 19h30 e sábados às 19h.

Duração: 130 minutos.

Somente até 9 de dezembro!

Comente via Facebook