ENTREVISTA: O ascendente Felipe Hintze fala sobre os ensaios de “O Senhor Das Moscas”.

Por Paulo Neto.

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Felipe fará sua estreia no Teatro Musical em “O Senhor das Moscas”, dia 4/5, no Teatro SESI, em São Paulo. Todas as apresentações serão gratuitas.

12 meninos sobrevivem em uma ilha deserta após a queda de um avião. A história é encenada na Inglaterra pós Segunda Guerra Mundial. No local, os garotos passam por uma transição forçada de criança para a vida adulta por necessidade de sobrevivência. Neste tempo, são formados dois grupos que desencadeiam brigas internas por liderança. Uma espécie de “coming-of-age” coletivo que serviu de inspiração para a série “Lost” e ao programa “Survivor”.
Felipe Hintze viverá o personagem Piggy (Porquinho), garoto tímido que sempre tenta levar os demais meninos perdidos na ilha a agirem com a razão. Direcionada para o público infantojuvenil, “O Senhor das Moscas” foi lançado em 1954 e é uma reflexão sobre o comportamento contemporâneo da sociedade.

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O clássico livro do britânico William Golding, escrito em 1954, tem a sua primeira adaptação brasileira feita por Zé Henrique de Paula e exibição no Teatro do Sesi, em São Paulo, entre maio e dezembro. FOTO: Giovana Cirne.

Felipe Hintze nasceu em Campinas (SP) e teve sua primeira oportunidade no meio artístico na peça “A Toca do Coelho” (Rabbit Hole), de John Cameron Mitchell, sendo escolhido pelo diretor Dan Stulbach dentre 400 candidatos. Em seguida, Felipe participou dos sucessos “Dupla Identidade” e “Verdades Secretas”, na TV Globo. Está no elenco da próxima temporada de “Malhação – Viva a Diferença”, que estreia em maio e no cinema, participou do filme “A Despedida”, de Marcelo Galvão, ao lado de Juliana Paes e Nelson Xavier. Atuou também na adaptação latina da série SuperMax (atualmente, sendo exibida na Argentina). Na entrevista a seguir, o ator conversa sobre sua carreira e seus últimos trabalhos.

#INCITARTE – Você tem transitado em trabalhos no teatro (“O Corte, “O Senhor das Moscas”), TV aberta e fechada (nova temporada de Malhação, série Supermax versão argentina) e cinema (“A Despedida”). Em qual dos 3 formatos você se realiza mais como ator?

FELIPE HINTZE – Acredito que a realização esteja coligada com as oportunidades. Sinto-me realizado quando tenho a oportunidade de exercer o meu trabalho, quando eu me envolvo em um projeto no qual minha função é ser um fio transmissor de uma mensagem e quando há uma identificação da minha visão de arte com o projeto que estou fazendo. Para mim, a essência é a mesma. Tanto da TV, quanto do teatro ou do cinema. É só um ajuste de veículo. Mas eu vim do teatro. Foi lá que eu me descobri ator. Lá que eu me reinvento, me descubro, evoluo no campo profissional e pessoal. O teatro é muito generoso. Tenho muito respeito pelo palco.

#INCITARTE – “O Senhor das Moscas” é um texto importante, um clássico da literatura do pós-guerra, leitura obrigatória em muitas escolas na Europa. Como é vivenciar o Piggy (Porquinho), personagem tão emblemático no texto?

F.H. – Eu estou completamente apaixonado pelo projeto, pelo Porquinho. É uma obra necessária com uma mensagem de suma importância. Todos os personagens são importantes, é uma peça completamente coral e isso engrandece muito essa história. Dentre os meninos, o Porquinho representa a razão e a inteligência. Ele transita do humor para o drama de uma forma muito linda e emblemática. O fato dele sofrer bullying pelos colegas da escola, ter asma, usar óculos e ter toda a trajetória que ele percorre durante a peça só me estimula a construí-lo com mais detalhes. A Inês Aranha, preparadora de elenco, contribui muito para as construções particulares das personagens. Ela auxilia na construção corporal com técnicas próprias e muito eficientes. Ela é fantástica!

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FELIPE HINTZE, sobre seu diretor em “O Senhor das Moscas”, Zé Henrique de Paula: “Eu tenho a sensação de que a gente pode se jogar que sempre terá uma rede de segurança pronta”. FOTO: Giovana Cirne.

#INCITARTE – Como é trabalhar com Zé Henrique De Paula, um dos melhores encenadores na cena teatral paulistana? E quais são os benefícios de ensaiar um texto durante 7 meses (ao invés dos 2 ou 3 meses habituais)?

F.H. – É um sonho! Eu já era fã do trabalho do Núcleo Experimental, mas eu nunca imaginaria que eu ficaria tão realizado em fazer parte de uma produção deles. O Zé constrói tudo com tanta perfeição, carinho e delicadeza que a gente se sente muito seguro na hora de executar o trabalho. Eu tenho a sensação de que a gente pode se jogar que sempre terá uma rede de segurança pronta. Ele conta com uma equipe maravilhosa que “calça” muito bem o ator. Eu nunca tinha tido experiência com canto e dança, mas graças a diretora musical da peça, Fernanda Maia e ao nosso coreógrafo, Gabriel Malo, eu consegui adquirir experiência. A Inês Aranha completa o time dando preparação de atores e o Zé administra tudo isso com muita maestria. Ele é genial e já está fazendo história no cenário atual do teatro no Brasil. Poder ter a oportunidade de ter muito tempo de ensaio é fantástico. Não existe pressa. Tudo foi sendo criado no seu devido tempo. Tivemos muito tempo para desenvolver trabalho de mesa: entender o texto, suas unidades de ações, temas de cada cena. Montamos uma parte em action, um método de montar cenas desenvolvido pela Inês e pelo núcleo. Começamos a ensaiar um mês antes da estreia no teatro com cenários e figurinos prontos. É realmente um privilégio.

#INCITARTE – “O Senhor Das Moscas” vai atingir uma fatia imensa de jovens paulistanos de diversas classes sociais, já que será de graça pelo projeto do Sesi. Qual a importância desses jovens entrarem em contato com a obra de William Golding?

F.H. – Essa obra tem uma função social importante, ela retrata dessa transição da infância para a fase adulta e todos que já vivenciaram essa fase conseguem absorver essa mensagem, por isso creio que até os mais velhos tem uma identificação com a peça. Eu acredito no poder que essa obra tem na formação de caráter do ser humano, pois é nessa fase em que se estabelece a formação de valores e princípios e essa relação é bastante explorada na peça. Ter que lidar com escolhas, perdas e o acaso fazem parte do crescimento. Todos têm a sua criança interior e é importante preservá-la, a vida fica mais fácil quando encaramos os problemas de forma mais leve e bem humorada. Falar de áreas de sombra e escuridão iminentes da essência do ser humano e de como isso é acessado e explorado em situações limites, o que o ser humano é capaz de fazer. A maldade, infelizmente, pode ser instaurada no coração até dos mais puros, dependendo do meio. “O Homem é Lobo do Homem”. Se um desses jovens pegar 10% das mensagens que a peça transmite, já estamos em vantagem. Só de ir ao teatro e não ao shopping, já estamos colaborando com a cultura, já somos vencedores. Eu sempre sonhei em fazer teatro de qualidade acessível para a população. É admirável a atitude de uma instituição como o Sesi, que entrega cultura da melhor qualidade para todos.

#INCITARTE – “O Senhor Das Moscas” foi adaptado para o cinema 2 vezes. Você e o restante do elenco optaram por ver esses filmes ou preferiram criações livres de referências tendenciosas?

F.H. – Minha preparação é sempre estudar e procurar saber o máximo sobre o projeto. Eu comecei imergindo na obra literária, li o livro algumas vezes e uso ele como mecanismo de estudo. Os filmes assisti uma vez cada. Uma referência que usei muito foi a série “Lost”, o livro foi uma das inspirações para a criação da série. Fiz um laboratório de estudo observando a atitude das crianças de 10, 11 anos. Fomos em um colégio e ficamos só observando na hora do recreio como eles se relacionavam. Vi algumas atuações geniais de crianças na série “Stranger Things” e do Jacob Tremblay em “O Quarto de Jack”. Vi o musical “Carrossel”, também dirigido pelo Zé Henrique, atento na energia cênica das crianças. Fizemos um trabalho também baseado em estações corporais com referências em quadro de obras de artes. Mas tudo isso é só pra se abastecer com material. As criações são totalmente livres e emerge de nós mesmos quase sempre do intuitivo e do impulso. A peça tem essa característica coral com cada personagem tendo a sua força e particularidade. Todos foram bem criativos em suas criações. O Thalles Cabral, por exemplo, optou por uma criação rica em detalhes e única da sua personagem, saindo do óbvio e muito diferente do que se propunha os outros “Simons” que eu vi ou imaginava. O Davi Tápias também criou partituras corporais únicas. O Bruno Fagundes, que eu tenho uma parceria durante a peça toda, além de construir um Ralph de uma maneira excepcional, transborda generosidade e talento. A troca com o elenco todo, que é muito bem escalado, sempre é viva e intensa. Queria falar detalhadamente de todos pois todos estão fazendo um trabalho diferencial e claro que isso é mérito também do Zé que coordenou tudo com muita precisão. Nossa peça não chega a ter atuações super realistas, elas bebem um pouco do surrealismo, da tragédia, então essas construções únicas e pessoais só enriquecem a peça.

#INCITARTE – “O Senhor Das Moscas” focaliza jovens divididos em duas facções: a razão versus a brutalidade desmedida. Parece-me urgente resgatar este texto em uma época onde os jovens estão tão antagonizados em grupos distintos e politicamente engajados de maneira quase irracional. Como você enxerga esse link?

F.H. – Logo que é instaurado a situação em que eles se encontram, eles decidem democraticamente escolher um líder para tomar as grandes decisões pelo grupo. Eles estabelecem poucas mas importantes regras para uma relação de fala e escuta, sempre com a supervisão do líder. É importante pra eles estabelecerem a ordem naquele ambiente. O que move a sociedade é a ordem e é necessário manter a ordem acima de tudo, ela que nos diferencia dos animais. Ordem, valores, princípios. É o que nos torna seres racionais. Quando se rompe os valores, se rompe a humanidade. Infelizmente a democracia se enfraquece e em um dado momento da peça, os meninos se dividem em dois grupos. Eles acabam tomando partidos de decisões dos líderes: uns por medo, acabam indo para o lado dos “mais fortes” pois querem sobreviver e caçar; outros, baseado na razão e na sabedoria, acabam optando por ficarem na praia criando formas de sinalização, buscando o resgate. No decorrer da peça você se pergunta qual o motivo de cada personagem ter escolhido o seu “lado” e muitos, quase que irracionalmente, participam de ações que vão contra seus princípios. O público, por meio da catarse, pode se identificar com esses personagens. Isso só engrandece o espetáculo.

#INCITARTE – Você tem trabalhado principalmente com textos de autores estrangeiros (John Cameron Mitchell, Mark Ravenhill e William Golding). Tem vontade de viver personagens essencialmente brasileiros, de dramaturgos nacionais?

F.H. – Tenho muita vontade! Há tantos dramaturgos brasileiros contemporâneos incríveis! Muita gente nova fazendo coisas boas. Também gosto dos clássicos nacionais. Gosto muito da obra de Nelson Rodrigues. Adoraria fazer “O Beijo no Asfalto”, por exemplo.

#INCITARTE – No teatro, você tem tido oportunidades preciosas de vivenciar personagens fortes em textos densos e audaciosos. Tem vontade de trabalhar em registros mais leves, comédias populares, por exemplo?

F.H. – Isso é engraçado. Eu sempre imaginei que começaria na profissão fazendo comédia. Quando eu fazia aula de teatro, eu sempre optava por cenas cômicas. Meu primeiro trabalho foi no drama e eu venho fazendo trabalhos dramáticos. Me sinto muito feliz e realizado neles, me estimula muito fazer drama, sempre é um desafio. Sei que uma hora vou fazer uma comédia, mas tem que vir naturalmente, na hora certa e no momento certo.

 

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Com elenco de “A Toca do Coelho”, seu début no Teatro: Dan Stulbach escolheu Felipe entre 400 atores.

#INCITARTE – “A Toca Do Coelho” (Rabbit Hole) foi a sua estreia no teatro. Como foi fazer seu début ao lado de Maria Fernanda Cândido, Selma Egrei e Reynaldo Gianecchini em um texto tão bonito sobre luto, perda e redenção?

F.H. – Eu tenho um carinho muito especial por essa peça, ela realmente mudou minha vida. O Dan Stulbach, diretor da peça, abriu testes para um dos personagens. Foram mais de 400 candidatos e passei. O processo inteiro foi muito prazeroso, eu aprendi muito com a Maria Fernanda e todo o elenco. A Fer é maravilhosa, sempre escuto seus conselhos de profissão. Aprendi muito com Selma, que atriz extraordinária. Giane é um querido, depois nos encontramos em “Verdades Secretas”. As pessoas me paravam na rua por conta da peça, após o espetáculo elas esperavam no teatro, choravam, compartilhavam as suas histórias. Até hoje elas lembram da Toca. Ficamos mais de um ano em cartaz, fizemos São Paulo, Rio e Curitiba. Logo depois, entrei para a série “Dupla Identidade”, graças ao produtor de elenco Guilherme Gobbi, que assistiu a peça e me chamou para um teste. Colhi frutos bons dessa peça e tenho muita gratidão pelo Dan por ter me dado essa primeira oportunidade no meio.

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Com Cecilia Roth: Felipe atuou em espanhol para a série “Supermax”, na televisão argentina.

INCITARTE – Você tem agarrado suas chances com unhas de dentes, numa ação típica de jovens atores apaixonados pelo ofício. Quais projetos futuros tem pela frente e o que o motiva na profissão?

F.H. – O que me motiva é o desafio, a história, a mensagem. O prazer de atuar. Sou completamente apaixonado por essa profissão e me transborda felicidade quando eu vejo que o meu trabalho, de alguma forma, modifica o outro. Eu quero é me jogar mesmo. Sou muito grato pelas oportunidades legais que vem aparecendo. No ano passado, eu atuei em outra língua contracenando com Cecilia Roth no “Supermax Internacional”, esse ano no “Senhor das Moscas” aprendi a cantar para o espetáculo. Quero ter mais oportunidades de interpretar mais personagens distintos e diferentes do que eu já fiz.
Esse ano estou comprometido com o “Senhor das Moscas” e com a nova temporada da Malhação (Viva a Diferença). Estou bem feliz com esses dois projetos, eles conversam com o mesmo público. Caiu como uma luva.

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