“Everybody’s Talking About Jamie”: Musical do West End é um sopro de glitter no cinza londrino.

Por Paulo Neto.

"EVERYBODY'S TALKING ABOUT JAMIE" é um sopro de glitter no cinza londrino. Cast formidável e canções apaixonantes são os highlights do hit do momento em Londres.

“EVERYBODY’S TALKING ABOUT JAMIE”: Cast formidável e canções apaixonantes são os highlights do hit do momento em Londres.

Jamie Campbell tem 16 anos, mora no interior do Reino Unido (numa cidade chamada Sheffield) com a mãe, que o criou sozinha. Ele leva uma vida de classe média e tem uma sexualidade fluida. Seu grande desejo é ir ao ‘prom‘ (o baile de formatura do ensino médio) dentro de um vestido glamouroso. Para realizar esta vontade tão intrínseca de sua identidade, enfrenta o preconceito dentro do colégio, através da figura da diretora e também dos colegas, além de ser renegado pelo pai. Baseado numa história real acontecida há cerca de seis anos, o espetáculo toca em temas bastante atuais e urgentes como identidade de gênero, fluidez na sexualidade, homofobia e autoaceitação. Jamie não é transexual, nem se define como travesti. Ele é apenas um garoto que gosta de vestir roupas femininas de vez em quando, para se divertir e dar vazão a parte de si mesmo. No íntimo, é um menino sensível e solitário, que luta para ser amado. Os desdobramentos desta empolgante história resultaram em um musical moderno, recheado de canções irresistíveis e com um imenso apelo popular. É fácil identificar-se com o protagonista, um rapaz em busca da realização de seus sonhos mais íntimos. Muito se fala sobre empoderamento feminino mas é necessário fortificar também os jovens homens gays, para que saiam de seus armários angustiantes e entreguem-se ao mundo com auto-admiração e garra.

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FOTO: Divulgação.

Sim, na escola todos estão falando de Jamie, como diz o título do musical, mas ele não se faz de rogado. Enfrenta os opositores com cinismo e inteligência nas respostas. Interpretado pelo estreante John McCrea (que tem 24 anos, mas interpreta um garoto 8 anos mais novo) com vibração, carisma e grande talento vocal, Jamie é um personagem dos sonhos para qualquer ator iniciante. McCrea agarra esta chance com unhas, dentes, saltos e números de ‘styletto‘. Aliás, as coreografias são um dos highlights do espetáculo, que é dirigido por um reconhecido diretor de movimento e coreógrafo britânico, Jonathan Butterell. Os números da escola, ao lado e acima das mesas e cadeiras dos alunos, têm uma pegada “Matilda” e “Spring Awakening” (O Despertar da Primavera). As canções, 80% delas de grande qualidade, foram compostas por Dan Gillespie Sells, vocalista da banda inglesa The Feeling. Algumas músicas são tão bonitas que já entraram para a minha lista de melhores do ano, como “Wall in My Head”, “It Means Beautiful” e “If I Met Myself Again”. De inegável apelo pop, conseguem inserir o público na história com arranjos modernos e são melodicamente envolventes. Apesar dos temas serem urgentes, a dramaturgia de Tom MacRea (colaborador de seriados ingleses como ‘Doctor Who’) carece de maiores aprofundamentos. Muitas cenas são levantadas no melhor estilo “Malhação”. Mas não é um demérito para uma produção feita para todas as idades, mas com um foco claramente maior aos jovens.

O elenco é um acerto em todos os sentidos. Além do protagonista-revelação, há também desempenhos louváveis de Josie Walker como a mãe (“He’s My Boy” é um solo de aquecer o coração), Lucie Shorthouse, outra revelação como a melhor amiga, a muçulmana Pretti (é dela um dos momentos mais comoventes, quando canta “Spotlight“) e Mina Anwar, no papel da melhor amiga da mãe, que está sempre mostrando os produtos genéricos que acabou de comprar em promoções. Os momentos de Jamie na cozinha, ao lado da mãe, remetem a “Billy Elliot” (há, inclusive, reminiscências constantes dele na narrativa). As cenas com as drag queens que ensinam Jamie a se portar relembram a adrenalina de “Priscilla – A Rainha Do Deserto”. A drag queen-tutora de Jamie (chamada hilariamente de “Loco Chanelle”) é interpretada pelo talentoso Phil Nichol, um comediante de mão cheia.

FOTO: Divulgação.

FOTO: Divulgação.

É importante ressaltar como a parte vocal em produções do West End é colocada como prioridade. Nas escolhas dos elencos, há comediantes, atores que vivem mais de televisão e estreantes, além do cast tarimbado. Sem exceção, quando chegam seus momentos, sejam solos ou coletivos, eles brilham. Abrem a boca e cantam lindamente, com afinação e propriedade. É difícil ver um ator fazer feio, vocalmente, num musical do West End ou da Broadway.

“Everyvody’s Talking About Jamie” é um dos novos hits da cena teatral de Londres, indicado a 5 categorias do Olivier Awards (a principal premiação do teatro por lá), incluindo Melhor Ator (John McCrea), Atriz (Josie Walker) e Música (Dan Gillespie Sells). Vale dizer que no álbum lançado recentemente, em uma das canções, “Work Of Art”, há a participação de Sophie Ellis-Baxtor. Um musical para sair querendo fazer o download de quase todas as canções e deixar tocando o dia inteiro. Um espetáculo de qualidade indiscutível. Como diz uma das canções, é uma produção que tem “a little bit of glitter in the gray”, um sopro de brilho no cinza de Londres.

“EVERYBODY’S TALKING ABOUT JAMIE”

The Apollo Theatre (Londres)

2a a sábado, às 19h30 / 4a e sábado, às 14h30

Ingressos a partir de 20 libras.

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