“É Audição!”: Webserie de sucesso ganha versão teatral dirigida por Julia Carrera.

Por Paulo Fernando Góes.

Está em cartaz no Teatro Vannucci, no shopping da Gávea (RJ), um musical que veio da Internet para os palcos. O espetáculo é inspirado na webserie homônima “É Audição!”, de Ieda Ribeiro e Marleide Morais, que contabiliza mais de 15 mil inscritos no canal do YouTube e mais de 90 episódios produzidos pela ID Actors, uma empresa de agenciamento de atores.

A peça traz no elenco 26 jovens atores, alguns conhecidos de trabalhos televisivos, como Gabriella Saraivah, de “Chiquititas”, Davi Souza, de “Malhação”, Júlia Svacinna, de “O Mecanismo”, Mari Cardoso, do “The Voice Kids”, Matheus Costa, de “América”, Luisa González, de “Gabi Estrella” e Rebecca Souter, de “Valentins”. Em cena, eles contam sobre as alegrias e ansiedades de crianças, adolescentes e adultos que decidem ser artistas.

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Com músicas originais tocadas ao vivo, números de canto, dança contemporânea, sapateado, textos reflexivos e cenas de plateia, o espetáculo aproxima o público do cotidiano de jovens artistas, “uma verdadeira miscelânea sobre o que é ser adolescente e artista nos dias de hoje”, detalha a diretora. A encenação também procura aproximar a narrativa do espetáculo aos efeitos da conexão em rede, tão presente na atualidade, especialmente na vida dos jovens.

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A missão de dirigir este numeroso elenco ficou a cargo de Julia Carrera, cria do Tablado, atriz, diretora, professora e produtora cultural há 21 anos. Sobre a experiência, Julia afirma: “Achei interessante a metalinguagem, atores falando sobre a própria vivência e experiência. Mas logo percebi que para o teatro teríamos que ter mais camadas, para ganhar um pouco mais de profundidade e reflexão. Meu maior desafio foi equalizar tantas personas artísticas para criar um espetáculo único”.

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Batemos um rápido e instigante papo com a diretora Julia Carrera sobre o processo de “É Audição!”, sua relação com os atores e com a arte.

#INCITARTE – O espetáculo veio da Internet, habitat natural dos jovens que já nasceram conectados. Você acha que o espetáculo trará os webespectadores da série ou talvez um público que ainda não tenha tido a experiência do Teatro?

JULIA CARRERA – Nossa expectativa é trazer tanto os webespectadores quanto aqueles que nunca foram ao teatro e imagino que haja uma interseção grande entre esses dois grupos! Esse é exatamente o ponto nevrálgico da peça, juventude e internet, sendo que, na verdade, internet faz parte da vida de todos, atualmente, de todas as gerações. No processo de criação procuramos justamente entender o que seria a linguagem e os efeitos da internet na cena para tentar conseguir uma conexão genuína entre os atores e o público. Investigamos qual seria uma boa plataforma onde os atores pudessem expor suas visões de mundo, ansiedades, dúvidas, desabafos e talentos de uma forma íntima e potente ao mesmo tempo, para que o público se sinta atraído pelo espetáculo. Muita curiosidade para saber como será. (Risos)

#INCITARTE – Como você percebe os anseios dessa nova geração de atores? Ainda sonham em fazer uma novela ou querem mais é ser um influenciador digital?

JULIA CARRERA – Tive a sorte de trabalhar nesse projeto com jovens muito talentosos e focados no trabalho, com uma seriedade que nem sempre se vê, mesmo em atores com uma carreira já estabelecida. Percebo que muitos ainda estão entendendo quem são, como artistas e como pessoas, e isso é muito bom, porque são muito jovens. Tivemos algumas discussões sobre o universo de trabalho em que estão inseridos, como por exemplo, qual a melhor forma de lidar com testes em que ter muitos seguidores nas redes sociais é tão importante quanto apresentar um bom trabalho, o que priorizar nos cursos de formação artística que participam, entre outros assuntos. Mas me surpreendi muito ao perceber que a maioria tem uma visão crítica bem elaborada sobre esse universo e conseguem equalizar bem suas aspirações e expectativas. Eu diria que existem os que sonham com uma carreira artística mais sólida, envolvendo TV (especialmente as séries), teatro e cinema e existem os que se percebem surfando pela internet, aproveitando a onda do momento, como aliás acontece em todas as épocas.

#INCITARTE – Qual a maior lição que você trouxe do Tablado e passou pros atores de “É audição”?

JULIA CARRERA – É verdade, não canso de dizer que ‘O Tablado’ me moldou como artista e todas as influências e inspirações que vieram em seguida, como o Théâtre du Soleil, reforçaram o que aprendi por lá. Procurei instigar os atores de “É Audição” a se perceberem mais do que intérpretes, a se tornarem artistas com uma visão mais ampla do lugar que ocupam. No nosso processo, trouxe ferramentas para que todos criassem suas próprias cenas, músicas e coreografias, investigando suas próprias habilidades, discursos íntimos, momentos de vida, tomando as rédeas da criação de forma mais intensa. E isso é minha maior herança do Tablado. Professores como os saudosos Cico Caseira e Bernardo Jablonski, a minha querida mestra Guida Vianna, me ensinaram a viver o teatro de forma global. Muitas vezes recebi responsabilidades que eu nem sabia se seria capaz de dar conta e a satisfação em conseguir me superar foi determinante para minha autoconfiança enquanto artista. Nessa peça procurei dar aos atores a chance de viverem essa mesma experiência, de se descobrirem autores, compositores, coreógrafos, e o melhor resultado para mim foi perceber os seus olhos brilhando de satisfação com suas próprias conquistas. Sinto uma sensação de dever cumprido, de que sigo passando adiante o que recebi de mais precioso. E, para mim, arte é isso, o encontro verdadeiro com o outro e consigo mesmo. Essa é, inclusive, a linha que seguimos na Escola Mutatis de Atuação, que dirijo no Rio e em São Paulo em parceria com a Livraria Cultura. Oferecer a todos o espaço para se descobrirem artistas e as ferramentas para se aprimorarem dentro de suas próprias habilidades.

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Conversamos também com a obstinada atriz Gi Fernandes (na foto, ao centro), do elenco de “É Audição!”.

#INCITARTE – Você é passista, canta, dança, tem o samba na veia e já se apresentou até no Domingão do Faustão. Ainda assim, estrear seu primeiro espetáculo de teatro profissionalmente te dá um frio na barriga?

GI FERNANDES – Claro! Sempre dá um friozinho na hora que você sobe ao palco. Quando subi no palco pela primeira vez, senti que lá era o lugar onde eu precisava estar e graças ao samba, que é um grande palco, perdi a vergonha, o medo e ganhei confiança, junto com a vontade de ir mais além. Continuo me esforçando e acreditando que se cheguei aqui neste palco, onde estou realizando um sonho, foi por dedicação minha, da minha família e de todas as pessoas que estão torcendo por mim.

Outro aspecto muito interessante e inovador de “É Audição!” é um sorteio para fazer parte do elenco em uma apresentação. Nas sessões de sábado (dias 1, 8, 15 e 22 de setembro), os atores/espectadores interessados avisam na entrada que querem participar do sorteio e o contemplado terá uma semana para ensaiar e receber orientações até sua apresentação, na semana seguinte, onde poderá mostrar seu talento.

 

“É AUDIÇÃO!”

Texto: Criação coletiva a partir da websérie homônima de Ieda Ribeiro
Direção: Julia Carrera
Músicas: Julia Svacinna, Barbara Dias, Gi Fernandes, Bruna Botelho, Natalia Guedes, Anna Paula Barros, Duda Moreira e Catharina Kubotta.
Direção Musical: João Carrera
Coreografias: Ramon Costa, Vania Pinheiro, Poliana Carvalho, Julio Oliveto e Leonardo Pires

Elenco: Ana Varello, Anna Paula Barros, Bia Vedovato, Bianca Vedovato, Bruna Botelho, Bruna Fachetti, Catharina Kubotta, Davi Souza, Duda Moreira, Eduardo Martins, Gabriella Saraivah, Gi Fernandes, Gustavo Cesca, Júlia Svacinna, Julio Oliveto, Leonardo Pires, Leonardo Moraes, Luisa Gonzalez, Mari Cardoso, Matheus Costa, Natália Guedes, Nicholas Carrera Gomlevsky, Patrick Magela, Poliana Carvalho, Ramon Costa, Rebecca Solter e Robson Barbosa.

Teatro Vannucci – Shopping da Gávea (RJ)
Sábados e domingos, às 18h30
Ingressos: R$60 (inteira) | R$ 30 (meia)

Somente até 30 de setembro!

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