“Dois Perdidos Numa Noite Suja”: Discórdia e tensão numa hospedaria barata, na obra de Plínio Marcos, narrada pela Cia Plúmbea (RJ).

Por Cristiano Ayres.

O clássico texto de Plínio Marcos, “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, ganhou nova montagem através da Companhia Plúmbea, que está em cartaz na Sala Rogério Cardoso, na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema. O autor, escritor e dramaturgo paulistano, tido como maldito, foi um dos primeiros a retratar a vida da classe operária. Além de “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, ele é o autor de clássicos como “Abajur Lilás” (1976) e “Navalha na Carne”(1967). A Cia Plúmbea é um grupo de pesquisa técnica e ética do ofício do ator que trabalha a partir de processos coletivos, tendo como foco o treinamento, desenvolvimento e a personalidade de cada integrante.

FOTO: Rodrigo Menezes.

FOTO: Rodrigo Menezes.

O espetáculo surge após uma pesquisa de aproximadamente dois anos, através de danças populares, lutas, acrobacias, samba e teatro-dança para reproduzir os conflitos presentes na obra de Plínio Marcos, que apresenta a aridez do castigado cotidiano de dois personagens marginalizados. Estes personagens são Tonho e Paco, que trabalham como carregadores num mercado durante o dia e dividem um quarto em uma hospedaria barata, enquanto descansam à noite, para retomar a labuta no dia seguinte. Uma convivência que se intensifica à medida que o tempo passa, culminando em momentos de grande tensão.

Paco ganha um par de sapatos, o que desperta inveja em Tonho, que acredita que tudo o que necessita é um calçado apresentável. Logo, o objeto serve como o estopim para detonar uma situação limite entre eles. Tonho chega a perguntar a Paco: “Como eu posso ir a uma entrevista de emprego com um sapato velho?”. A versão da peça feita pela companhia utiliza-se de elementos como a música e o gesto como agregadores à narrativa, conferindo uma singular partitura corporal ao espetáculo.

Os personagens são vividos pelas atrizes Ana Cecília Reis (Paco) e Caju Bezerra (Tonho), que trazem à cena dois homens intensos, carregados de emoção e virulência do início ao fim da peça. A direção sagaz é da também atriz do espetáculo, Ana Cecília Reis, a belíssima cenografia é de Carlos Chapéu, o desenho de luz, de Paulo Barbeto e Isabella Castro e o figurino, de Caju Bezerra, que também responde pela coreografia ao lado de Ana Cecília Reis. A concepção e direção de movimento ficou a cargo de Ronaldo Ventura.

A diretora Ana Cecília Reis é fundadora da Cia Plúmbea. Ela já foi contemplada com o prêmio de melhor direção no Festival Nacional de Barbacena (MG) pelo espetáculo “Terrabatida: Reminiscência de Canudos”. Sobre seu trabalho em “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, ela afirma:

“Traduzimos fisicamente a relação de conflito e poder entre as personagens. Trouxemos elementos de luta, circo, e danças populares e viram diálogos, fazendo com que o corpo intensifique a palavra. Movimento e texto se fundem numa dramaturgia do corpo”.

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Ana Cecília Reis e Caju Bezerra: Atrizes vivem Paco e Tonho, respectivamente, no clássico de Plínio Marcos.

“O Mundo é Assim”, na interpretação da Velha Guarda da Portela, “Sonho Juvenil”, na voz de Jovelina Pérola Negra, “Preciso me Encontrar”, de Cartola, “Brinde”, de Candeia, dentre outras belas músicas, fazem parte da trilha sonora da peça, executada por Paulo Barbeto. O compositor Ederaldo Gentil abre e fecha o espetáculo com as canções “Identidade” e “Provinciano”. O samba de breque paulista, cultuado nos anos 1970, permeia o universo de Plínio Marcos e alinhava musicalmente toda a história. É como se o público estivesse ouvindo o rádio daqueles tempos.

A ótima cenografia assinada por Carlos Chapéu transporta a plateia para o interior da hospedaria, com toda uma riqueza de objetos característicos: janelas com vidraças estilhaçadas, tijolos aparentes, bacia e garrafa no chão e roupas penduradas no varal. Todos os objetos de cena dialogam com a mis en scène do espetáculo e seduzem o espectador, fazendo-o se sentir parte integrante da narrativa. Os objetos de cena são carregados de significados neste espetáculo. Na primeira cena, a gaita é o início para deflagrar toda a desarmonia entre os personagens. Em seguida, o sapato surge quase como algo sagrado, estabelecendo uma acirrada disputa entre eles.

Em suma, “Dois Perdidos Numa Noite Suja” é um bem elaborado trabalho da Cia Plúmbea que merece a atenção do espectador pelo conjunto da obra.

 

“Dois Perdidos Numa Noite Suja”, de Plínio Marcos.

Direção: Ana Cecília Reis.

Com: Ana Cecília Reis e Caju Bezerra.

Casa de Cultura Laura Alvim – Sala Rogério Cardoso (Av. Vieira Souto, 176, Ipanema)

Ingressos: R$30 (inteira) e R$15 (meia)

Terças e quartas, às 20h.

Somente até 20/12!

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