ENTREVISTA DAVI TÁPIAS: Ator capixaba vive seu melhor momento no Teatro, como protagonista de “Lembro Todo Dia de Você”, musical do Núcleo Experimental.

Por Paulo Neto.

Capixaba de Vila Velha-ES, Davi Tápias, 27 anos, tem em seu currículo estudos no Conservartório Brasileiro de Música e temporadas de acting classes em Edimburgo e Nova Iorque. Tápias participou da montagem relativamente recente de “Godspell”, associou-se ao Núcleo Experimental – comandado pelo diretor Zé Henrique De Paula – e com eles integrou o cast do premiado “Urinal” (adaptação brasileira para o musical britânico “Urine Town”). Neste momento, está em cartaz com dois espetáculos também dirigidos por De Paula: “Senhor das Moscas” (“Lord Of The Flies” à tarde, de quinta a domingo e “Lembro Todo Dia de Você”, um musical totalmente brasileiro e originalíssimo, com sessões à noite, de sexta a segunda. Na entrevista a seguir, o ascendente e talentoso jovem ator conversa sobre sua carreira, seus métodos e aspirações.

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#INCITARTE – Sua formação inclui uma temporada de estudos nos EUA? Estudou música e atuação?

DAVI TÁPIAS – A minha formação como ator é pelo Indac, em São Paulo e em música pelo Conservatório de Música, no Espírito Santo. Meu primeiro contato com Teatro no exterior foi quando morei em Edimburgo, na Escócia. Por volta dos 16 anos, fiz parte de um grupo de teatro na escola onde estudei e soube lá que era isso que eu queria fazer. Cheguei até a prestar vestibular para estudar teatro mas precisei voltar antes. Nos EUA, fiz cursos breves na área de cinema e dança, mas aproveitei meu tempo pesquisando textos que eu não conhecia e vendo muito teatro.

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DAVI TÁPIAS (à esquerda) e NÚCLEO EXPERIMENTAL: Ator é fã da Companhia desde 2006, mas só veio trabalhar nela 10 anos depois, na última temporada de “Urinal”, como swing.

#INCITARTE – Como foi seu encontro com com o Núcleo Experimental de Teatro e a tão competente trupe liderada por Zé Henrique de Paula?

D.T. – Sou fã e acompanho o trabalho do Núcleo dede que assisti “Cândida”, em 2006, quando eles foram a Vitória, minha cidade natal. Em São Paulo, estudei com Inês Aranha, a preparadora de elenco do Núcleo e conheci o trabalho do Zé mais de perto em uma oficina liderada por ele. Participei da seleção de um projeto deles que acabei não fazendo mas pouco tempo depois veio o convite para integrar a última temporada do musical “Urinal” como swing e pude conhecer de perto o trabalho da Fernanda Maia, nossa diretora musical. Depois disso, integrei o elenco de “Senhor das Moscas” e participei da leitura cantada de “Lembro Todo Dia de Você”, primeiro tratamento do musical. As afinidades artísticas com a equipe do Núcleo são muito verdadeiras, então quando você encontra pessoas assim no caminho, é natural que queira estar perto pois muitas das suas buscas ganham um norte, um sentido.

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Com Bruna Guerin, em “Lembro Todo Dia de Você”: Personagem soropositivo foi divisor de águas em sua carreira. FOTO: Lenise Pinheiro.

#INCITARTE – Como foi sua preparação para viver o Thiago, um garoto de 20 anos, soropositivo, papel principal de “Lembro Todo Dia de Você”?

D.T. – Por mais clichê que pareça, eu preciso dizer que o Thiago é um divisor de águas – não só na minha carreira, mas na minha vida pessoal. Dar conta do universo deste personagem exigiu que eu confrontasse a minha própria ignorância e despreparo para lidar com os temas que pautam a vida dele. Foram muitas conversas com pessoas que convivem com HIV, pesquisas, visitas a hospitais, centros de apoio e exames. Em uma ocasião, eu e o Fábio Augusto Barreto (que faz uma cena comigo ambientada no Hospital Emílio Ribas) fomos ao hospital e depois nos testamos juntos. Devorei livros, blogs, filmes… Todo o elenco e direção se ajudou muito compartilhando cada descoberta pra ajudar o nosso crescimento não só na peça, mas na vida. Mas, definitivamente, a pessoa fundamental para me ajudar a compor o Thiago foi o Rafa Miranda. Além de eu “roubar” gestuais e traquejos físicos dele, o Rafa me ajudou com todo o carinho e coragem do mundo conversando comigo abertamente sobre as verdades e ficções do Thiago em relação a vida dele, que inspirou o musical. Estes foram os momentos mais importantes deste processo pra mim, onde eu vi o Thiago nascer entre nós dois. Nestas conversas, percebi o quanto “partes” das nossas vida são parecidas, o quanto dele há em mim e vice-versa. Sigo grato a ele todo dia por isso.

#INCITARTE – Há dor e humor no Thiago. Como você consegue dosar essas quantidades certas de melancolia e comédia no personagem?

D.T. – Acho que somos todos esta grande mistura que nos faz tão plurais. Uma leitura incauta do texto poderia vitimizar demais o Thiago sem honrar as cores que ele traz consigo. Fernanda Maia me presenteou com momentos solares do Thiago que me permitiram ousar e descobrir onde moram suas alegrias e prazeres, o amor incondicional pela mãe, a partilha de toda uma vida com a melhor amiga, a efervescência sexual de seus namoros… Enfim, tudo isso me possibilitou voar tão alto com o personagem que quando ele tem sua queda no espetáculo, a sensação é a mais vertiginosa possível. Acho que a dosagem vem da honestidade com a qual você se propõe a viver aquela vida. Tratam-se de situações intensas e limítrofes, portanto, busco passar por tudo o que o Thiago passa durante a peça o mais inteiro possível.

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DAVI TÁPIAS (à esquerda): “Textos e pesquisas fora do formato convencional de musical, ou que explorem novas possibilidades de música na narrativa têm me interessado mais do que os libretos muito tradicionais ou importados.” FOTO: Lenise Pinheiro.

#INCITARTE – Você toca piano e tem um background especificamente musical. Sua carreira vai pender para o teatro musical ou você irá abraçar várias vertentes dentro do segmento?

D.T – Música, piano e canto foram os primeiros caminhos que encontrei para fazer arte, mas obras fora da linguagem musical tradicional sempre me encantaram tanto quanto os musicais. Eu era a criança nerd do teatro que leu (e amou) todos os Shakespeares que a escola sugeria e que, quando adolescente, pediu de presente de aniversário uma viagem a São Paulo para ver o Paulo Autran fazendo Molière. Por uma questão de afinidade artística, textos e pesquisas fora do formato convencional de musical, ou que explorem novas possibilidades de música na narrativa têm me interessado mais do que os libretos muito tradicionais ou importados. Creio que o meu próximo projeto no teatro, por exemplo, não seja nada musical. Recentemente tive a oportunidade de assinar a direção musical e composições originais de uma montagem acadêmica de “Círculo de Giz Caucasiano”, dirigida por Kiko Marques, um diretor que respeito e admiro há muito tempo. Ele me deu toda a liberdade para brincar com o texto de Brecht, transformar e reescrever cenas em música, brincar com harmonias e texturas e me inspirou em trabalhar musicalmente no contraponto das cenas. Foi uma das experiências mais enriquecedoras que já tive.

#INCITARTE – Poucas vezes o tema da Aids foi abordado com tamanha lucidez no teatro. Como você se sente contando essa história tão atual e contribuindo para a necessária discussão?

D.T. – Existe um descompasso muito grande entre os avanços feitos no campo da medicina em relação ao HIV e a discussão do assunto no âmbito social. Acho que o teatro, desde sempre, busca estreitar abismos como este e conciliar os olhares sobre temas incitando discussão. Neste sentido, um assunto tão necessário, que requer um olhar tão sensível, merece ser abraçado pelo teatro – e, sendo musical, o espetáculo ganha muito pela capacidade da música de sublimar sensações e expandir as possibilidades narrativas. Tratar disso no palco passeando pela música, dança, humor e lágrimas me inspira muito e renova diariamente minha escolha de dedicar a vida ao fazer teatral. A coisa mais legal é que temos notado bastante identificação do público com as personagens não só no que tange a questão do HIV, mas aos temas mais amplos da peça como solidão, perda e abandono – o abandono que sofremos e o que causamos a nós mesmos. Durante o processo, estes temas me convocaram muito e poder sentir que estamos falando de coisas realmente universais é muito gratificante.

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DAVI TÁPIAS: “Eu era a criança nerd do teatro que leu e amou todos os Shakespeares que a escola sugeria e que, quando adolescente, pediu de presente de aniversário uma viagem a São Paulo para ver o Paulo Autran fazendo Molière”.

#INCITARTE – Quem são seus ídolos no teatro nacional e mundial? Quais personagens tem vontade de viver?

D.T. – No Brasil, tive a sorte de ver Paulo Autran em cena e jamais perdi a chance de ver a Bibi fazer qualquer coisa. Admiro muito o trabalho de atores como Danilo Granghéia, Wagner Moura, Denise Weinberg e Georgette Fadel. Acompanho também de perto o trabalho de companhias como a Velha Companhia, Companhia Dos à Deux e a Cia. Mungunzá de Teatro. Internacionalmente, é necessário ver tudo o que o Ricardo Darín faz, bem como Daniel Day Lewis (até mesmo Nine), Bennedict Cumberbatch e Ian McKellen. Ah, e é claro: Meryl Streep, Cate Blanchett, Viola Davis e Marion Cotillard. Quanto aos personagens, são muitos! A maior pressa que eu tenho é de chegar aos 30, 40 anos, para poder fazer Bobby, de “Company”, meu musical favorito. Outros sonhos também são Puck, de “Sonho de Uma Noite de Verão”; John Proctor de “As Bruxas de Salém”; um Brecht (Galileu, Azdak, Macheath…) e, claro, “Hamlet”.

#INCITARTE – Além do universo da dramaturgia e da música, quais são suas outras fontes de prazer?

D.T. – Cinema, café, chocolate, Walter Hugo, Mãe, Leminski, vinho, Oreo, Liza Minelli, cozinha capixaba (frutos do mar!), viajar, livrarias, tomar café com amigos, Sondheim, conversar com minha avó, gatos e chopp.

#INCITARTE – Com quais diretores (de TV, cinema ou teatro) tem vontade de contribuir e trabalhar?

D.T. – Já tive a felicidade de “ticar” desta lista o Zé Henrique De Paula e Kiko Marques, mas ela continua com Felipe Hirsch, Enrique Diáz, Grace Passô, João Falcão, Georgette Fadel, Aderbal Freire-Filho, Rafael Gomes, Ulysses Cruz, e Kleber Mendonça Filho. Um pouquinho mais longe estão Almodóvar, Ivo van Hoven, Alex Timbers, Woody Allen, John Doyle e James Lapine.

#INCITARTE – Como você concilia estar em cartaz com “Senhor das Moscas” pela tarde, no Sesi e com “Lembro Todo Dia de Você”?

D.T. – Os dois espetáculos são extremamente exigentes em níveis diferentes mas não excludentes. Senhor das Moscas é um espetáculo que requer um preparo físico muito alto. Lá eu interpreto um menino de 7 anos de idade que integra o coro e tenho o prazer de dividir o palco, camarim e a maior parte dos meus dias (com ou sem peça) com o elenco mais incrível que já encontrei. Os meninos são super disponíveis, queridos e brincam um jogo novo a cada dia. Desta maneira, toda sessão fica viva e diferente. Mas realmente há uma chave que tem que ser virada ao sair do Sesi e ir para o CCBB. Para o “Lembro”, preciso de um tempinho calado, a sós, para assentar a energia e me concentrar. Conversei muito com o Bruno Fagundes, que também está em cartaz com outro espetáculo após o nosso [“Baixa Terapia”, no Tuca] e chegamos a conclusão de que essa história de “se poupar” não rola, só nos resta agradecer por poder fazer parte de dois trabalhos dos sonhos ao mesmo tempo.

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