FOTO: Nana Moraes.

“Dançando no Escuro”: Adaptação do filme para o Teatro apresenta excelência em todos os aspectos.

Por Paulo Fernando Góes.

Reestreou ontem no Teatro Sesi (RJ) o elogiado espetáculo “Dançando no Escuro”, indicado ao prêmio Shell e CESGRANRIO (Atriz e Música), APTR (Música) e vencedor do prêmio Botequim Cultural na categoria Melhor Atriz para Juliane Bodini. Muito mais indicações merecia o espetáculo, inclusive em categorias especiais, pela sua proposta de acessibilidade. “Dançando no Escuro” conta a história de Selma, a operária de uma fábrica que está perdendo sua visão por conta de uma doença hereditária degenerativa e sua luta para que o filho de 12 anos não tenha o mesmo destino. Em sintonia com o tema, o espetáculo tem 2 deficientes visuais na banda e é o único espetáculo em cartaz no Rio de Janeiro com sessões exclusivas com libras, audiodescrição, programas em braile e visitas guiadas para cegos conhecerem o cenário.

“Transpor para o teatro essa obra cinematográfica tão marcante veio da vontade de abrir os olhos para o mundo, abordando assuntos tão pertinentes como preconceito, exclusão social e injustiça. E assim, tentar mudar os padrões e os vícios de uma sociedade onde a intolerância prevalece e o descaso nos envenena. É preciso enxergar o outro. Assim, escolhemos fazer um trabalho, um movimento, que permita que todo o público tenha acessibilidade dentro e fora do palco”, contam Juliane Bodini e Luis Antônio Fortes, idealizadores do projeto.

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FOTO: Nana Moraes.

O espetáculo é a única adaptação teatral autorizada do filme do cineasta dinamarquês Lars Von Trier, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes no ano 2000. A protagonista Björk também levou o troféu de melhor atriz no festival. São dela as canções do filme, com destaque para “I’ve Seen It All”, indicada ao Grammy e ao Oscar. Orgânica, a adaptação de Patrick Ellsworth e a tradução de Elidia Novaes não deixam que o espectador que já viu o filme estranhe ou sinta falta de nada do que foi visto no cinema. É extremamente difícil e delicado adaptar para o Teatro uma obra tão densa como “Dançando no Escuro”, especialmente porque a linguagem cinematográfica de Lars Von Trier tem uma assinatura muito marcante. O que se vê no Teatro é a história à frente, sobrepondo-se a estilos ou vaidades. É a humanidade (ou desumanidade) das personagens que aparecem em primeiro plano.

Quem recebeu a difícil missão de dirigir o espetáculo foi Dani Barros, estreante como diretora mas tarimbada como atriz. Dani já brilhou em sucessos como “Estamira” e já teve a oportunidade de ser dirigida por mestres como Antônio Abujamra, com quem, certamente, muito aprendeu. Sua direção é delicada e utiliza-se de muitas soluções essencialmente teatrais mas que levam o espectador a enxergar um mundo além do palco. É daqueles espetáculos que você sai com a sensação de ter visto um filme. Mas é puro teatro. E dos bons.

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FOTO: Elisa Mendes.

Juliane Bodini está magnífica como Selma. Este papel é dela e de mais ninguém, ela e Selma foram feitas uma para a outra. Não é à tôa que a atriz lutou tanto para realizar este projeto. Enquanto aluna da Casa de Artes de Laranjeiras (CAL), Juliane estudou com Paulo Afonso de Lima, outro grande conhecedor de Teatro Musical, falecido em março de 2017. Foi dele a ideia de adaptar o filme para o Teatro e assim o fizeram, numa prática de montagem da escola de teatro. Juliane saiu da CAL com o sonho de realizar uma montagem profissional da peça, inscreveu-se no fomento, ganhou mas, como muitos outros, não levou, graças a um calote da prefeitura. Assim mesmo, seguiu adiante com seu sonho e o tirou do papel. Só mesmo um projeto muito incrível para conseguir ser feito “na raça” com uma ficha técnica tão numerosa e com tantos talentos do teatro carioca. O produtor, idealizador (junto com Bodini) e também ator do espetáculo, Luis Antonio Fortes, afirma, sobre a necessidade de realizar o projeto:

“É uma história que precisa ser contada. As pessoas precisam ouvi-la e vê-la. É um musical grande, com nove atores, criança no elenco, músicos, muitos técnicos, com tudo que um grande musical tem. Você entra no teatro não só para se divertir ou se emocionar. É um musical que vai além disso”.

E vai mesmo. O excelente elenco e dramaturgia tiram o fôlego da plateia e os concentram de tal forma que ninguém se distrai ou vê passar os 120 minutos de espetáculo. Não há como não ter empatia com Selma e sua luta para conseguir dinheiro para realizar a cirurgia que vai livrar o filho da cegueira. A montagem brasileira de “Dançando no Escuro”, única no mundo, se não será, pelo menos deveria ser franqueada para o mundo todo. É um orgulho e um privilégio para nós ter um espetáculo como este em cartaz. Que saibamos aproveitar!

 

“Dançando no Escuro”

Teatro SESI (Av. Graça Aranha, 1 – Centro, Rio de Janeiro)

5a a Sábado, às 19 horas e Domingo, às 18 horas.

Adaptação Teatral: Patrick Ellsworth

Tradução: Elidia Novaes

Direção: Dani Barros

Músicas livremente inspiradas no universo de Björk

Direção Musical e Arranjos: Marcelo Alonso Neves

Idealização: Juliane Bodini e Luis Antonio Fortes

Elenco: Juliane Bodini, Luis Antonio Fortes, Andrêas Gatto, Carolina Pismel, Daniel Brasil, Julia Gorman, Lucas Gouvêa, Marino Rocha / Jefferson Schroeder e Suzana Nascimento

Músicos: Dilson Nascimento, Julio Florindo, Leonardo Lobo e Mauricio Chiari.

Cenário: Mina Quental

Figurino: Carol Lobato

Iluminação: Felicio Mafra

Direção de Movimento e Coreografias: Denise Stutz

Aulas e Coreografia do Sapateado: Clara Equi

Preparação Corporal e Coreografias: Camila Caputti

Preparação Vocal: Mirna Rubim

Visagista: Marcio Mello

Programação Visual: Daniel de Jesus

Ingressos: R$ 40 (inteira) / R$ 20 (meia)

Até 20/5/18!

 

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