“Cena Brasil Internacional”: Festival internacional de Artes Cênicas volta ao CCBB-RJ para sua oitava edição

Por Redação

O melhor da cena internacional não passa despercebido aos olhos atentos do produtor Sérgio Saboya e do jornalista, diretor e dramaturgo Luiz Felipe Reis. Ambos são os responsáveis pela curadoria do Cena Brasil Internacional, tradicional festival que traz espetáculos de teatro, dança, performances, oficinas e palestras ao Centro Cultural do Banco do Brasil, localizado no Centro do Rio de Janeiro, próximo à igreja da Candelária. A oitava edição do evento acontece de 5 a 16 de junho e traz seis obras, vindas de São Paulo e Recife, além de quatro internacionais, da Argentina, Estados Unidos e França, totalizando 27 apresentações com preços populares (R$ 30 e R$ 15), que traçam um expressivo panorama das artes cênicas contemporânea.

FOTO: Nereu Jr.

O deslocamento e o encontro entre artistas e comunidades locais do Rio Xingu são o ponto de partida de “Altamira 2042”, de São Paulo, com direção e performance de Gabriela Carneiro da Cunha. FOTO: Nereu Jr.

Desde a sua primeira edição, o Cena funciona como um modelo híbrido, que conjuga residência artística e uma mostra seleta de espetáculos. A cada ano, as obras selecionadas são o reflexo de visões muito diversas sobre as possibilidades da cena, mas que trazem algo em comum: um olhar livre, desimpedido e oxigenado sobre as artes cênicas.  

Segundo Luiz Felipe Reis, os espetáculos apresentados este ano têm, comumente, a capacidade de ampliar a nossa percepção sobre as possibilidades do fazer teatral. “São obras que se apresentam em cena através de formatos por vezes inclassificáveis, que exercitam vínculos e rupturas entre formas de teatro, dança, performance, instalação, intervenção e outras linguagens”, conta. “São contundentes em seus conteúdos e ousados em sua forma, que jogam luz em temas fundamentais e urgentes por meio de abordagens e estratégias estéticas incomuns e surpreendentes”, completa.

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“Black velvet – Architectures and archetypes” (Veludo negro – Arquiteturas e arquétipos), inédito no Rio, Pitts e Mirelle misturam dança, performance e projeções para refletir sobre as diversas cores da negritude. FOTO: Alex Apt.

O Cena Brasil Internacional apresenta ainda workshops, palestras e residências gratuitas, além de uma área externa de convivência com food trucks, um ponto de encontro entre artistas e público antes e depois da ampla programação cultural. A programação se estende também à Escola de Cinema Darcy Ribeiro, que recebe o espetáculo paulista “Quando quebra queima”. As atrações nacionais e internacionais contam com traduções de legendas eletrônicas em inglês e português.

A PROGRAMAÇÃO DE 2019 

Internacionais

O coreógrafo americano Shamel Pitts estreia no Cena Brasil Internacional com dois espetáculos que fazem parte da trilogia Black Series. Em “Black hole – Trilogy and triathlon” (Buraco negro – Trilogia e triatlon), inédito no Brasil, Pitts divide a cena com a bailarina goiana Mirelle Martins para apresentar uma experiência de arte performática caleidoscópica que utiliza movimento, luz e artes visuais. O público é levado numa jornada hipnótica e cheia de cores na qual quatro artistas negros — Mirelle (Brasil), Tushrik Fredericks (África do Sul), Ricardo Januario (Brasil) e Shamel (Estados Unidos) — se unem para criar uma trindade de vigor, afro-futurismo e acolhimento. 

Já em “Black velvet – Architectures and archetypes” (Veludo negro – Arquiteturas e arquétipos), inédito no Rio, Pitts e Mirelle misturam dança, performance e projeções para refletir sobre as diversas cores da negritude. 

Com estreia mundial no Cena Brasil, o espetáculo francês “Rester vivant” (Permanecer vivo), de Yves-Noël Genod, é uma obra cujo processo criativo iniciou-se na Europa com três performers (o português Ricardo Paz, o francês Baptiste Ménard e a brasileira Isabela Fernandes Santana), que será finalizada numa residência ao longo do festival. A eles se juntarão outros performers, profissionais ou não, que vão participar de um workshop para formar um coro na montagem do espetáculo. “Rester vivant” investiga a condição do artista diante dos dilemas do nosso tempo. Livremente inspirada no ensaio homônimo de Michel Houellebecq – uma série de cartas a um jovem poeta que o autor aconselha a não se suicidar –, a obra trata da dificuldade de se permanecer vivo, criativo e ativo e, ao mesmo tempo, da inevitabilidade de continuar resistindo. 

Nova criação da bailarina, coreógrafa e diretora argentina Mayra Bonard, “Mi fiesta” (Minha festa), solo inédito do Brasil, investiga os limites e os atravessamentos entre as esferas do público e do privado. Em cena, Mayra se move em reação a um texto escrito pelo também argentino Pedro Mairal (“A Uruguaia”), que recria episódios afetivos, amorosos e violentos, vividos por uma mulher. Equilibrando-se sobre taças de vidro, assim como atando e desatando seu corpo, ela constrói, aos poucos, um espetáculo de superação. 

Nacionais

Entre os espetáculos nacionais, “Isto é um negro?”, do coletivo paulista EQuemÉGosta?, faz uma alusão ao título da obra “É isto um homem?”, do escritor italiano Primo Levi. Com direção de Tarina Quelho, que assina a dramaturgia ao lado de Mirella Façanha, a montagem apresenta uma sequência de cenas que alternam seu foco no texto, na expressão verbal e na performance física de quatro jovens artistas: Ivy Souza, Lucas Wickhaus, Raoni Garcia e a própria Mirella. Além de articular as experiências de vida do elenco, o espetáculo traz reflexões de escritores e de pensadores como Angela Davis, Fred Moten, Achille Mbembe, Bell Hooks, Grada Kilomba, Frantz Fanon, Sueli Carneiro e Aimé Cesaire. 

O deslocamento e o encontro entre artistas e comunidades locais do Rio Xingu são o ponto de partida de “Altamira 2042”, de São Paulo, com direção e performance de Gabriela Carneiro da Cunha. O espetáculo é uma instalação sonora composta por caixas que amplificam testemunhos diversos interlocutores sobre a hidrelétrica de Belo Monte, no Pará: ribeirinhos, indígenas, lideranças de movimentos sociais, moradores da cidade de Altamira, funcionários do Governo Federal e de instituições socioambientais, a mata, os animais da região, o vento, a chuva e até o próprio rio. Uma polifonia de seres, línguas, sonoridades e perspectivas tomam o espaço para abrir a escuta do público para essas vozes.

“Quando quebra queima” é um espetáculo de São Paulo, do coletivA ocupação, com direção de Martha Kiss Perrone com estudantes/performers que participaram do movimento secundarista entre 2015/2016. Na apresentação, 15 artistas deslocam para a cena a experiência vivida durante o período da ocupação em que estiveram juntos. A peça, que está na fronteira entre performance e teatro, é uma “dança-luta” coletiva construída a partir das vivências e memórias de cada performer: diários, textos, músicas, coreografias, e fotos feitas pelos próprios secundaristas compõem a cena.

De Recife, vêm três espetáculos concebidos pela performer e dramaturga Flávia Pinheiro. Inédita no Rio, “Enchente” surge de um estudo transdisciplinar do conto homônimo do também pernambucano Hermilo Borba Filho, uma metáfora para as catástrofes humanas atuais: a indiferença e o fracasso do mundo assim como o conhecemos. A montagem se constrói em base a procedimentos que envolvem restrições e obstruções de movimentos, jogos com regras e materiais de arquivo. As relações entre os corpos de três performers (Marcela Aragão, Rebeca Gondim e a própria Flávia) questionam as hierarquias e ampliam suas possibilidades ao realizarem tarefas de improvisação. 

No solo “Como manter-se viva?”, Flávia investiga a urgência de permanecer em movimento como um mecanismo de sobrevivência. Um questionamento de como nos relacionamos com a imaterialidade das relações propostas pelos dispositivos e a certeza da impermanência. A dramaturgia converge para uma estética do precário, de uma lógica invertida, de um saber desde a experiência e da percepção. 

Já “Diafragma: dispositivo versão beta” é uma performance manifesto construída em relação aos dispositivos low tech e às tecnologias obsoletas. Em cena, a artista pesquisa o músculo diafragma como parte de um mecanismo motor, utilizando princípios de Gerald Raunig, Michael de Certeau, Vilém Flusser e Gilles Deleuze como eixo que organiza uma grande máquina (o corpo) que atua no tempo de forma nômade em busca de (des)territorializar-se. 

LISTA DA ATRAÇÕES

Nacionais

“Altamira 2042”, de Gabriela Carneiro da Cunha – Inédito no Rio;

 (SP | 2018 | 90 min. | 16 anos) 

“Como manter-se viva”, de Flávia Pinheiro

(PE | 2017 | 50 min. | livre)

“Diafragma: dispositivo versão beta”, de Flávia Pinheiro

(PE | 2015 | 40 min. | 16 anos)

“Enchente”, de Flávia Pinheiro – Inédito no Rio;

(PE |2016 | 50 min. | 16 anos)

“Isto é um negro?”, do grupo EQuemÉGosta? – Inédito no Rio;

(SP | 2018 | 100 min. | 18 anos) 

“Quando quebra queima”, do coletivA ocupação – Inédito no Rio.

(SP | 2018 | 90 min. | 10 anos)

Internacionais

“Black hole – Trilogy and triathlon”, de Shamel Pitts – Inédito no Brasil;

(EUA – BRA | 2016 | 61 min. | 14 anos)

“Black velvet – Architectures and archetypes”, de Shamel Pitts – Inédito no Rio;

(EUA – BRA | 2016 | 60 min. | 14 anos)

“Mi fiesta”, com Mayra Bonard – Inédito no Brasil;

(ARG| 2018 | 60 min. | 16 anos)

“Rester vivant”, de Yves-Noël Genod – Inédito no Brasil;

(FRA – BRA| 2019 | 120 min. | 18 anos)

PROGRAMAÇÃO DIÁRIA

5 de junho (quarta)

19h30 “Quando quebra queima” – Escola de Cinema Darcy Ribeiro foyer

20h “Black velvet– Architectures and archetypes” – CCBB Teatro I

6 de junho (quinta)

19h30 “Quando quebra queima” – Escola de Cinema Darcy Ribeiro foyer

20h “Black velvet– Architectures and archetypes” – CCBB Teatro I

7 de junho (sexta)

19h “Enchente” – CCBB Teatro II

19h30 “Quando quebra queima” – Escola de Cinema Darcy Ribeiro foyer

20h “Black velvet – Architectures and archetypes” – CCBB Teatro I

8 de junho (sábado)

15h Palestras “Hackeando as velhas estruturas” (ColetivA Ocupação), “Black box – Little black book of red” (Shamell Pitts) e “Salvem as bactérias! A luta contra os antibióticos” (Flavia Pinheiro) – CCBB Auditório 4º andar

19h “Enchente” – CCBB Teatro II

19h30 “Isto é um negro?” – CCBB Teatro I

9 de junho (domingo)

19h “Como manter-se viva?” – CCBB Teatro III

19h30 “Isto é um negro?” – CCBB Teatro I

10 de junho (segunda)

19h “Como manter-se viva?” – CCBB Teatro III

19h30 “Isto é um negro?” – CCBB Teatro I

20h “Mi fiesta” – CCBB Teatro II

12 de junho (quarta)

19h “Diafragma: Dispositivo versão beta” – CCBB Teatro III

19h30 “Black hole – Trilogy and triathlon”” – CCBB Teatro I

20h “Mi fiesta” – CCBB Teatro II

21h “Diafragma: Dispositivo versão beta” – CCBB Teatro III

13 de junho (quinta)

15h Palestras “Branquitude: artista e a normatização do direito de criar” (Mirella Façanha) e “Corpo específico” (Mayra Bonard e Carlos Casella) – CCBB Auditório 4º andar

19h30 “Black hole – Trilogy and triathlon” – CCBB Teatro I

20h “Mi fiesta” – CCBB Teatro II

14 de junho (sexta)

19h30 “Black hole- Trilogy and triathlon” – CCBB Teatro I

20h “Rester vivant” – CCBB Teatro II

20h30 “Altamira 2042” – CCBB Teatro III

15 de junho (sábado)

20h “Rester Vivant” – CCBB Teatro II

20h30 “Altamira 2042” – CCBB Teatro III

16 de junho (domingo)

15h Palestras “Possibilidades de um devir-documento daquilo que chamamos invisível” (Gabriela Carneiro da Cunha)  e “Férias da realidade” (Yves-Noël Genod) – CCBB Auditório 4º andar

20h “Rester Vivant” – CCBB Teatro II

20h30 “Altamira 2042” – CCBB Teatro III

 

CENA BRASIL INTERNACIONAL

Data: de 5 a 16 de junho de 2019.

Local: CCBB (Rua Primeiro de Março 66, Centro).

 

Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rua da Alfândega, 5, Centro)

Espetáculo: “Quando quebra queima”

Datas: 5, 6 e 7 de junho, às 19h30

Informações: (21) 3808-2020.

Ingressos: R$30 (inteira) e R$ 15 (meia). Palestras: entrada franca.

Venda de ingressos: de quarta a segunda, das 9h às 21h, na bilheteria do CCBB e pelo site www.eventim.com.br

Site oficial do festival: www.cenabrasilinternacional.com.br

As apresentações estrangeiras têm legendas eletrônicas em português, e as nacionais têm legendas em inglês.

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