ENTREVISTA Bruno Cavalcanti: Saiba mais sobre o jornalista e autor do espetáculo “Papo com o Diabo”, recém-lançado em livro pela editora Giostri.

Por Paulo Fernando Góes.

Bruno Cavalcanti é uma dessas pessoas difíceis de se rotular, dada a diversidade de suas profissões. Embora todas elas estejam entre o jornalismo e as artes cênicas, o paulistano parece não ter nenhum medo de se jogar e se reinventar. Precoce, Bruno começou sua carreira como ator aos 14 anos na antiga CIA de Artes Monteiro Lobato (atual Cia. Quinteiros de Pirandello). Participou de espetáculos como “Estado Gasoso”, “Rascunhos”, “As Notas”, “Rascunhos Contemporâneos” e “Nós Somos Encantados”. Como jornalista, atualmente escreve críticas para o respeitado portal Anna Ramalho. Como assessor de imprensa, trabalhou no ramo do esporte, festas de rodeio e para estrelas do Teatro Musical, com quem também produziu alguns espetáculos, como “O Palhaço e a Bailarina”, com Kiara Sasso e Lázaro Menezes. Passeando pelas entranhas de tantos universos diferentes, o que não lhe faltavam eram histórias pra contar. Em 2013, lançou o e-book “Crônicas de um Jovem Jornalista”, pela editora Saraiva, que lhe rendeu uma indicação ao extinto Prêmio Qualidade SP. No mesmo ano, venceu o Prêmio Jovem Jornalista por uma série de matérias especiais sobre os blocos de rua da periferia. O novo salto na carreira se deu em 2017, quando escreveu o texto “Papo com o Diabo”, especialmente para o versátil ator Eduardo Martini. A montagem, sob direção de um dos maiores nomes do Teatro paulistano, Elias Andreato, foi sucesso de público e crítica e agora é lançada em livro pela Editora Giostri. Com 2 textos inéditos para Teatro que pretende estrear em 2019 (“Noite Adentro” e “Pequeno Manual Prático para a Vida Feliz”), Bruno Cavalcanti também ganhará mais uma alcunha: biógrafo. Ele está escrevendo a biografia da cantora Vânia Bastos e mais outra que guarda segredo sobre quem será.

Na entrevista a seguir, Bruno fala sobre Teatro Musical, críticas especializadas, as tendências do jornalismo cultural e quais são seus próximos projetos. Confira.

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BRUNO CAVALCANTI: “O crítico brasileiro é como Michel Temer, puramente decorativo.” FOTO: Vinícius Campos.

#INCITARTE – Bruno Cavalcanti, você é ator, produtor, jornalista, crítico e agora dramaturgo. Tantas qualificações profissionais atrapalham ou ajudam na hora de receber convites de trabalho?

BRUNO CAVALCANTI – Acho muito forte me classificar como ator ou dramaturgo. Eu tenho um respeito imenso pela classe dos atores, que estudam, trabalham e fazem valer o registro profissional que batalharam tanto para conquistar e alguma pessoa sem caráter decidiu propor que seja extinto. Não sou ator, de vez em quando dou uma pinta na peça de amigos, mas tudo muito bissexto, não vivo dessa profissão. É preciso ter um respeito imensurável por estes profissionais que fazem o Brasil parar, pensar, refletir e se divertir. O mesmo quanto aos dramaturgos. Eu estudo dramaturgia lendo, assistindo, pesquisando, mas não tenho uma formação clássica. Não conheço os macetes. Então, respeito quem dedica sua vida para a dramaturgia. Eu sou um jornalista, isso sem dúvidas. Um jornalista que atua, um jornalista que escreve peças, um jornalista que produz. Mas um jornalista! Essa é minha área de especialidade, é no que me formei e o que estudo ainda hoje com afinco e respeito e é para essa área que dedico todo meu corporativismo. Respeito o teatro como jornalista, respeito às artes em geral como um jornalista que vive delas. Enquanto produtor, tive a sorte de assistir grandes profissionais fazendo, aprender e conseguir fazer com imodesto brilhantismo. Respondendo a sua pergunta, não há ajuda nem impedimento. Produtor e jornalista são trabalhos completamente diferentes que, vez ou outra se complementam, afinal sou a mesma pessoa, não posso deixar de usar minhas experiências para agregar em um ou outro trabalho. Estudei jornalismo justamente para ter esta liberdade de transitar por onde eu quiser, como o Arthur Xexéo faz brilhantemente, por exemplo.

#INCITARTE – Você escreve críticas para o respeitado portal Anna Ramalho, com raro embasamento e sinceridade. O que você responde às pessoas que dizem que “todo crítico é um ator frustrado”?

B.C. – Respondo que são críticos sem base teórica e sem a coragem de enfrentar a resposta a uma opinião sincera. Pior do que enfrentar uma crítica, é enfrentar a reação a ela. Pra ser crítico, precisa ter culhão! Você vê uma porção imensa de pessoas que abrem seus blogs e são incapazes de dizer que alguma produção tem defeitos. É um festival de elogios inverossímeis, um festival de afago de egos. Eu não consigo, estamos falando do meu ofício, do meu estudo. Eu me tornei um jornalista especializado em cultura ralando muito, estudando muito, lendo muito, pesquisando muito. Sou jornalista, pesquisador e crítico, ganhei prêmios, não comecei ontem, não sou um fã de teatro musical que se acha no direito de criticar a meu bel prazer. Tudo o que escrevo tem embasamento técnico e teórico, não gosto de achismos, fui estudar iluminação para entender o mínimo, fui estudar desenho de som para entender o mínimo, fui conhecer dramaturgia para entender de construção, direção a mesma coisa, fui ter base. Ser crítico é um ofício que precisa ter embasamento, precisa saber escrever. O Mauro Ferreira não virou crítico de música por ser um cantor frustrado, virou crítico porque ama música. O Dib Carneiro Neto ama teatro, o Dirceu Alves ama teatro, o Ruy Castro ama futebol, cinema, música… ninguém vira crítico porque odeia o objeto criticado, porque senão seria uma vida muito dura e sem graça. Eu critico teatro porque o amo e o respeito. E ter respeito não é falar bem sem filtro, é respeitar uma obra sabendo onde ela pode chegar e onde não chegou. E pra assumir isso, é preciso ter coragem!

#INCITARTE – Como você avalia o jornalismo cultural de hoje, com grandes veículos enxugando suas equipes e mais profissionais trabalhando de forma independente?

B.C. – O jornalismo cultural vive o reflexo de como a cultura de forma em geral vem sendo tratada no Brasil. Na verdade, de como ela sempre foi tratada. Diferente de outros mercados, como os famigerados Estados Unidos da América, o Brasil não enxerga sua cultura como uma forma de fomentar capital. É super anti-romântico o que estou dizendo, eu sei, afinal a cultura deveria ser um agente transformador de vidas, não de bolsos, mas num mundo que vive na base do “Money makes the world go around”, é impossível deixar de notar a nossa total falta de tino comercial. Os americanos já perceberam isso há muitos anos. Eles tornaram a Bossa Nova uma música comercialmente deles. É um braço do jazz. Tom, João e Vinícius, por muito tempo, ganharam troco de pinga pela obra monumental que compuseram e interpretaram, e isso não é achismo, é história, basta pesquisar, basta ler. A cultura no Brasil ou é enxergada com romantismo excessivo, ou enxergada com desprezo completo. Por que grandes bailarinos, grandes pintores, artistas plásticos, patinadores, por que essa gente deixa o Brasil para tentar a vida nos Estados Unidos, ou mesmo na Europa? Porque a arte é um meio de capital por lá. Mesmo na Argentina. O cinema deles é tão bom porque aprendeu a fundir arte e capital. Então o jornalismo vai pelo mesmo caminho. E, de mais a mais, eu mesmo tenho achado a figura do crítico um tanto quanto dispensável, apesar de amar e respeitar meu ofício. Pouquíssimas pessoas se fiam pelo o que nós dizemos, e mesmo os que o fazem, vão assistir peças ou filmes ruins ou para conferir com os próprios olhos, ou para ver alguém famoso e garantir a foto do Instagram. O crítico brasileiro é como Michel Temer, puramente decorativo. Sobre trabalhar de forma independente, isso não é nenhuma reinvenção da roda mercadológica. Grandes empresas nasceram porque alguém decidiu ir trabalhar de forma independente. No jornalismo não é diferente. Mário Rodrigues, Samuel Wainer, Mário Filho, Millôr Fernandes, todos eles foram ser independentes e criaram grandes publicações. Mais recentemente, Mauro Ferreira, Miguel Arcanjo Prado e Cristina Padiglione deram bye bye para as redações enormes e foram trabalhar em seus próprios blogs, que depois foram acoplados por grandes portais. Isso é business, não há nada de milagre ou de romantismo nisso.

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BRUNO CAVALCANTI: “A cultura no Brasil ou é enxergada com romantismo excessivo, ou enxergada com desprezo completo”. FOTO: Vinicius Campos.

#INCITARTE – Você trabalhou recentemente para grandes nomes do Teatro Musical, como Gottsha, Alessandra Verney, Kiara Sasso e Renata Ricci. Como você avalia o gênero no Brasil?

B.C. – Acho que tivemos um desvio de caminho. O teatro musical é uma das poucas vertentes da cultura que soube, durante anos, unir arte da melhor qualidade e rendimento financeiro. As montagens brasileiras, geralmente pelas mãos de gente como Charles Möeller e Cláudio Botelho, Jorge Takla e Tadeu Aguiar, sempre tiveram um alto nível artístico, só ver as primeiras montagens de “A Noviça Rebelde”, “Company”, “My Fair Lady”, “Avenida Q”, “West Side Story”, entre outros títulos. Eram grandes espetáculos que traziam elencos uniformes (a maioria) e algum conceito. Hoje a coisa vai se perdendo. Falta uniformidade nos elencos. Atrizes e atores que não cantam uma vírgula, ou que cantam maravilhosamente bem, mas não seguram uma cena, estão à frente de grandes produções e você nota a deficiência, ou nas notas que não são atingidas ou em textos falados de forma primária. Isso se deve muito ao boom comercial que foi “Os Miseráveis” em 2000. O mercado se viu desfalcado de mão de obra e precisou correr atrás do atraso com urgência, então as pessoas foram estudar dança e canto para formar coro, mas são pouquíssimos que realmente estudam interpretação. A maioria contrata profissionais de coaching para tentar segurar uma cena, mas não acontece, não é o bastante. Por isso o teatro musical busca no teatro convencional atores e atrizes que segurem cenas, mesmo que não segurem notas. Muitas vezes são eles que impedem o teatro musical de se tornar um show entrelaçado por textos mal falados. Você, aliás, citou nomes com os quais trabalhei que foram importantíssimos para esta formação clássica do teatro musical. Atores e atrizes que têm vozes espetaculares e são muito bons atores. Tive a chance de trabalhar de relance com a Alessandra Maestrini e o Daniel Boaventura, sou muito amigo da Ivanna Domenyco e fui amigo da Ada Chaseliov, todos muito ligados à produção de um teatro musical que bebia da fonte da técnica de interpretação casada com a técnica de canto e um entendimento assustador sobre música e teoria musical. Ivanna, Kiara e Maestrini têm ouvido de maestro, é impressionante. Lázaro Menezes, com quem também trabalho, é outro assombro no que diz respeito a entendimento de teatro e música e, ainda, teatro musical. São técnicas diferentes que se unem. Mas, é bom esclarecer, há uma necessidade comercial que não foi inventada pelo brasileiro. O teatro musical no mundo convoca atores e atrizes famosos da TV e do cinema para espetáculos que talvez um desconhecido não segure quando a conta chegar. No cinema, principalmente. Caso o contrário, que explicação teria Pierce Brosnan e Russel Crowe, que não cantam uma nota, protagonizarem filmes musicais como “Mamma Mia!” e “Les Mis”? Então, acho que mercadologicamente o teatro musical segue um caminho confortável, de produzir a todo custo para gerar renda, mas a qualidade tem caído progressivamente. Ainda há montagens que primam por bons atores que cantem bem, mas é um risco que precisa se pagar.

#INCITARTE – “Papo com o Diabo”, espetáculo teatral escrito por você para Eduardo Martini, foi lançado em livro pela Editora Giostri. Vale também lembrar e aplaudir a Editora Cobogó, que publica livros de novos dramaturgos. Como você avalia a nova dramaturgia nacional e por quê é tão difícil encontrar livros de espetáculos teatrais? 

B.C. – Não sei se sou capaz de opinar com tamanha propriedade sobre a dramaturgia nacional moderna, mas posso te dizer que gosto muito dos trabalhos do Dan Rosseto e do Pedro Granato, por exemplo. Mas acho que quase não se produz novos dramaturgos por motivos vários, um deles é o fato de ser um risco para grandes atores e atrizes se aventurarem a revelar uma pessoa desconhecida. O Eduardo Martini é um homem corajosíssimo, porque aposta. Como profissional, ele vive à beira do abismo, porque pode pescar uma pérola muito rara, ou pode dar um tiro n’água e isso é bastante complicado, então eu o saúdo. Contemporânea a mim, cito a Samantha Vitena, que é uma grande dramaturga que está se aventurando pela produção das próprias peças porque viu que, para fazer e fazer do jeito que acha certo, ela mesma precisa tomar as rédeas. Aplaudo isso. Eu sou fã de gente como Juliana Spadaccini, Pitty Webo, Maria Shu, Priscila Rezende. Acho o Fernando Duarte muito corajoso e destemido, enfrentando grandes ícones como Maria Callas e Marylin Monroe em sua dramaturgia. Isso me encanta. O Marcelo Varzea, que é um ator consagradíssimo, acabou de se comprovar um ótimo dramaturgo… Enfim, se você pesquisa realmente a fundo, você encontra grandes autores que ainda não tiveram seus espetáculos montados com o espaço que merecem, mas fico feliz que a dramaturgia nacional continue viva, embora à margem do mainstream. O grande problema é quando um dramaturgo inventa de fazer uma peça para a classe. Quando um recém-formado decide escrever e encenar uma peça para impressionar seus professores e esquece que há um público pagante ali. Isso é uma falta de respeito imensurável. É preciso pensar no público, pensar que as pessoas querem ter uma boa noite, ou que precisam ser instigadas. Por isso ainda piro lendo Dias Gomes, Nelson Rodrigues e Maria Adelaide Amaral. São pessoas que tiveram essa sacada e têm em seus currículos um teatro de altíssimo nível, que o público adora. E é muito difícil você encontrar livros de dramaturgia nacional porque é um investimento, ou seu ou da editora. E em ambos os casos, é possível que vocês deem com os burros n’água. Eu tive a sorte de encontrar na Giostri uma editora parceira, que topou comprar essa briga comigo porque acredita no texto e no potencial que ele tem. Mas são casos muito raros, porque o Brasil é um país que lê, mas lê muito pouco, e lê títulos muito específicos – nenhum deles é dramaturgia. A Maria Adelaide Amaral publicou o livro do “Mademoiselle Chanel”, um espetáculo encenado com Marília Pêra, com filas na porta da FAAP, em São Paulo, com prêmios e turnês internacionais… E ainda assim não é um best-seller. É um investimento que algumas editoras muito corajosas fazem porque esse mercado não pode morrer. É preciso que tenhamos em livros a obra teatral do Nelson Rodrigues, do Vianinha, do Franz Kepler, do Dias Gomes, da Maria Adelaide Amaral, do Chico Buarque de Hollanda, do Ruy Guerra, do Paulo Pontes, da Maria Clara Machado, do Plínio Marcos e de tantos outros nomes. Mesmo internacionais. Tenho o projeto de me debruçar sobre a obra do Nicky Silver, traduzir e publicar numa coletânea de dois livros a obra completa dele, que é um dramaturgo nova-iorquino espetacular, e cujas montagens no Brasil acontecem com certa periodicidade. Marco Nanini e Marieta Severo montaram, Kiko Mascarenhas e Mariana Ximenes montaram, Denise Weibert montou, então por que nenhuma editora se propôs a lançar essa obra completa? Ainda o farei um dia.

#INCITARTE – Você teve uma estreia de sucesso como dramaturgo, é ator e produtor. Pretende escrever algo para você produzir e atuar?

B.C. – Para produzir, sem dúvidas. Já escrevi, na verdade. Chama-se “Pequeno Manual Prático para a Vida Feliz”, que é um monólogo em forma de crônica sobre a Danuza Leão. É uma homenagem à Danuza, e estou em busca de uma atriz. Este é um espetáculo que quero produzir no ano que vem, porque acho que a Danuza é uma personagem de máxima importância na história cultural do Brasil que vem sendo deixada num lugar que me incomoda. É uma mulher de mais de 80 anos, que viu e viveu de tudo, e que é posta como uma retrógrada. A mulher que fez parte do desbunde e peitou ditadores, que ainda hoje se coloca contra a corrente, é uma retrógrada? Se Danuza é retrógrada, eu sou um padre beneditino. Quanto a atuar, talvez em breve. Vamos ver para onde a vida vai me levar.

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