“Branca”: Espetáculo levanta questões instigantes com sofisticada dramaturgia.

Por Paulo Fernando Góes.

De todas as carências do Teatro Brasileiro, talvez a maior delas seja a de dramaturgos. É por isso que começo direcionando meus aplausos ao autor de “Branca”, Walter Daguerre. Ele usa e abusa do seu talento da escrita neste espetáculo. Às vezes escreve em versos, outras vezes como literatura. Suas personagens ora conversam em diálogos, ora são narradoras da própria cena onde atuam. Tais malabarismos só são permitidos àqueles que tem o domínio da escrita e este é o caso de Daguerre.

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WALTER DAGUERRE: Dramaturgo teve a ideia para o texto a partir de uma notícia de jornal em 2010 mas só agora conseguiu encená-lo.

A história de “Branca”, por si só, já é fabulosa. Inspirada em uma notícia de jornal sobre uma mulher que perdeu a memória depois de sofrer um choque anafilático no dentista (por conta de uma alergia a anestesia), Walter vem desenvolvendo e tentando emplacar o texto desde 2010. No programa da peça, ele conta sua odisseia com parcerias que não vingaram e sobre seu encontro com o livro “Nietzsche e a grande política da linguagem”, da filósofa Viviane Mosé. Isso explica muita coisa. O espetáculo induz a reflexão com questionamentos típicos da filosofia, porém, não de uma forma vaga e sim de forma prática na vida da protagonista. Por consequência, a plateia imediatamente traz os mesmos questionamentos para si.

Branca é interpretada por Ludmila Wischansky que, também idealizadora do espetáculo, buscava junto com o diretor, Ivan Sugahara, um texto inédito, nacional e contemporâneo. Não demorou para encontrarem (e se apaixonarem) por “Branca”. Sugahara e Daguerre foram colegas de faculdade há 18 anos e só agora autor e diretor se juntaram. Tanta espera só podia resultar em um acontecimento grandioso. O espetáculo é minimalista no quesito encenação, o que só o torna ainda mais sofisticado. A mais pura essência do Teatro está ali.

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KAREN COELHO, LUDMILA WISCHANSKY E JOSÉ KARINI: Terapia para resgatar memória da esposa é um tiro pela culatra.

Na história, o marido zeloso, brilhantemente vivido por José Karini, faz de tudo para trazer de volta a memória da esposa mas ela rejeita a vida que levava. Ele procura por uma terapia especializada e a mulher passa a ter encontros periódicos com uma conceituada profissional, vivida por Karen Coelho. O talento incomensurável de Karen não é surpresa para os que frequentam os teatros cariocas, o que surpreende é a trajetória e o arco dramático da sua personagem. Vai muito além da esperada “orelha” de terapeuta ou de frases de efeito com lições para analisandos. Mais não conto para não entregar o ouro.

Mais aplausos merecem Julia Stockler, pela filha de Branca. Confusa, a adolescente parece gostar da nova mulher que sua mãe se tornou mas ela a rejeita como amiga, afinal, a quer como mãe. Cheia de nuances, a construção que Julia fez da sua personagem emociona e foge dos clichês da adolescente rebelde.

A direção de Ivan Sugahara é absolutamente teatral, dispensa adereços, objetos cênicos e utiliza-se tão somente dos seus 4 atores, da beleza da luz de Paulo César Medeiros e da música original de Marcello H. “O espetáculo me veio inteiro na cabeça ao ler o texto, coisa rara de acontecer”, conta Sugahara. De fato, ao sairmos do Teatro, temos a sensação de que esta história não poderia ser melhor contada de outro jeito, por outras pessoas ou em outro lugar. Essa é a magia do Teatro.

BRANCA+-+Julia+Stockler+Karen+Coelho+Ludmila+Wischansky+e+Jos+Karini+-++Renato+Mangolin+ALTA+113

ELENCO DE “BRANCA”: A temporada no Teatro Gláucio Gill encerra segunda-feira, dia 29 de maio, mas espetáculo segue em cartaz na Sede das CIAS, na Lapa, até 26 de junho.

“Branca” é um espetáculo sobre se perder e se encontrar. Sobre ser e não ser. Sobre querer e não ter. Sobre não querer e ter. Sobre existir e sobre viver. Sobre poesia, sobre mulheres. Sobre a delicadeza que nós precisamos.

“BRANCA”

Teatro Gláucio Gill, em Copacabana (ao lado da estação Cardeal Arcoverde).

De Sexta a Segunda-Feira, sempre às 20 horas.

Ingressos: R$ 30 (inteira)

*Somente até 29/05/17 no Teatro Gláucio Gill. Depois, espetáculo segue temporada de 2 a 26/06/17 na Sede das Cias, na Lapa.

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