“BAIXA TERAPIA” leva o espectador a um festival de risadas, surpresas e reflexões.

Por Paulo Neto.

O espetáculo “Bajo Terapia”, de Matías Del Federico, fez sucesso estrondoso em Buenos Aires, há 2 anos, e já foi adaptado para mais de 15 países ao longo dos últimos meses. O envolvente e incisivo texto argentino chega agora ao Brasil em ótima tradução de Clarisse Abujamra e dirigido com lucidez, arestas aparadas e sabedoria por Marco Antônio Pâmio.

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Um terapeuta marca, no mesmo horário, 3 casais em análise. Não comparece, mas deixa uma mesa com muitas garrafas de whisky e inúmeros envelopes em sequência para serem lidos e conduz, à distância, uma espécie de jogo onde cada um irá olhar para si próprio através da fala e do julgamento do outro. O mix de mazelas, dores e humores irão levar o espectador a um festival de surpresas, risadas e sensações incômodas e reveladoras.

Temas como medo de relacionamentos, suicídio, machismo, criação de filhos e violência contra a mulher são trazidos à tona sob o prisma da comédia, mas causando eficientes reflexões e incitando debates. Há, inclusive, uma ótima e rápida conversa com o elenco ao final da peça.

Antônio Fagundes e Mara Carvalho (ex casal na vida civil) revelam ótima parceria no palco, enquanto suas personagens andam e desandam, deixando aflorar conflitos estimulantes e um retrato vívido dos casais com valores diferentes e que não se acertam ao criar os filhos nos dias de hoje. Bruno Fagundes, em sua terceira peça com o pai, revela cada vez mais versatilidade e talento, desta vez criando um personagem adoravelmente imaturo, sem amarras e vivaz. Alexandra Martins pincela sua personagem indecisa com cores sóbrias e lúcidas. Fábio Espósito e Ilana Kaplan interpretam o terceiro casal: ele, imperialista, brutalizado e intransigente; ela, compassiva e cheia de dores guardadas, afogada no alcoolismo. Kaplan, aliás, ora econômica e sagaz, ora retumbantemente hilária, rende uma das melhores cenas da peça, quando serve, vertiginosamente, já em altíssima voltagem etílica, sua enésima dose de whisky.

No texto, há ecos de “Entre Quatro Paredes” (Huis Clos), de Jean Paul Sartre, onde indivíduos atormentados são enclausurados em um mesmo espaço, tendo de olhar para si mesmos através dos olhos dos outros. É possível remeter também a “Deus da Carnificina”, de Yasmina Reza, onde 2 casais digladiavam-se em uma sala por causa da briga escolar entre seus filhos. Não há como não lembrar também da peça francesa “Toc, Toc”, de Laurent Baffie, que ficou em cartaz durante anos no Brasil, na qual 6 pacientes com TOC (transtorno-obsessivo-compulsivo) encontravam-se em um consultório e travavam momentos hilariantes enquanto o médico não chegava.

“Baixa Terapia” chega em boa hora. É, desde já, uma das melhores comédias do ano e nos dá a certeza de que ver Antônio Fagundes e Bruno Fagundes, juntos no palco, é sinônimo de qualidade e deleite.

“Baixa Terapia”

Teatro Tuca (Rua Monte Alegre, nº 1.024, Perdizes, São Paulo, SP)

Sextas, às 21:30h por R$ 60; Sábados, às 20h por R$ 80; Domingos às 19h por R$ 70 (Preços de inteira)

Compras pela Internet: www.ingressorapido.com.br

Sessões com acessibilidade para deficientes auditivos e visuais nos dias 29/04, 27/05, 24/06 e 29/07 (Sempre o último sábado do mês).

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