“A vida não é um musical”: Última semana de ótima comédia musical que mistura Disney e política.

Por Paulo Fernando Góes.

Entra na sua última semana um dos melhores musicais em cartaz no Rio de Janeiro: “A Vida Não É um Musical”, de Leandro Muniz, com direção de João Fonseca e do próprio autor. O espetáculo satiriza o universo dos contos de fadas da Disney e o atual cenário político, o que é uma combinação tão inusitada quanto bem-sucedida. Na história, a protagonista Liz (Daniela Fontan), criada em um mundo perfeito de um vale encantado, cruza os limites proibidos que separam o vale do mundo real e se depara com todos os nossos problemas sociais e políticos. A disparidade destes mundos e a forma como a heroína lida com este choque está perfeitamente traduzida na foto abaixo.

Foto: Carol Pires.

Daniela Fontan e Thelmo Fernandes: Protagonista e antagonista de “A Vida Não É um Musical”. FOTO: Carol Pires.

Na contramão de franquias da Broadway e de espetáculos biográficos, o musical encontra uma ótima dramaturgia inédita, trilhas originais que ajudam a contar a história e, como não poderia deixar de ser, um elenco afinadíssimo. Nem mesmo os musicais que arrebatam patrocínios milionários conseguem sempre elencar um cast de tão belas vozes, como acontece em “A Vida Não É um Musical”. E para contar e cantar a história deste mundo perfeito, de fato, eram necessárias vozes também perfeitas, com muito vibrato e alcançando as notas mais altas. E é o que vemos aqui.

O elenco funciona como numa companhia de Teatro, graças a habilidade de João Fonseca, cabeça dos Fodidos Privilegiados, do mestre Antônio Abujamra. É dele a direção dos musicais “Tim Maia – Vale Tudo”, “Cássia Eller”, “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz” e “Gota d’água”, pra citar seus maiores sucessos. Os 10 atores de “A Vida Não É um Musical” (apresentados no programa como “Quase Companhia”) revezam-se em diferentes personagens do vale encantando e do mundo real, com pouco tempo para transição de cena ou troca de figurino, mas sem fazer nenhuma confusão na cabeça do espectador. Os destaques – embora todos apresentem ótimas performances – vão para Marcelo Nogueira, que sustenta o tom de príncipe do seu personagem até o fim, sem canastrice, Daniela Fontan, que, em inteligente construção, escapou do risco de ter sua personagem idiotizada e Nando Brandão, dosando a força e a fragilidade do seu personagem diante da política e seu sistema.

Em tempos de pouco espaço para reais diálogos políticos, ânimos acalorados nas redes sociais e grupos divididos e rotulados, é preciso inteligência e cautela para caminhar por este campo minado. O teatro pode ser político sem ser panfletário. Em “A Vida Não É um Musical” há apenas uma cena de panfletarismo que traz falas como “Foi golpe”, “Como pode alguém ser preso sem provas?” (algo do gênero) e uma atriz com camisa da CBF batendo panela. Exceto nesta cena, toda a trama e diálogos trazem o posicionamento político do autor de forma extremamente inteligente, sem ofensas a qualquer grupo. E é aí que está o poder transformador do teatro. Falar para os que já concordam com você é apenas “chover no molhado”, muito mais interessante é falar com quem discorda e o humor é uma ótima ferramenta para isso.

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FOTO: Carol Pires.

O espetáculo arranca boas gargalhadas da plateia, tem trilha contagiante e dá vontade de ver de novo. Na tragédia da nossa atual conjuntura política, o melhor mesmo é rir dela, fugindo para o vale encantado que está em cartaz somente até domingo, no SESC Copacabana.

“A Vida Não É um Musical”, de Leandro Muniz.

Direção: João Fonseca e Leandro Muniz

Direção Musical: Fabiano Krieger e Gustavo Salgado

Direção de Movimento e Coreografias: Carol Pires

Figurino: Carol Lobato

Cenário: Nello Marrese

Iluminação: Paulo Denizot

Visagismo: Diego Nardes

ELENCO: Daniela Fontan, Thelmo Fernandes, Augusto Volcato Ester Dias, Flora Menezes, Ingrid Gaigher, Joana Mendes, Marcelo Nogueira, Nando Brandão e Udylê Procópio

Teatro de Arena | Sesc Copacabana

5a, 6a e sábado, às 20h; domingo, às 19h

Ingressos: R$ 30,00 (inteira) | R$ 15,00 (meia-entrada) | R$ 7,50 (associado SESC)

Somente até 6/5/18!

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