ENTREVISTA: Eduardo Martini e Suzy Rêgo entregam ao público comédia da melhor qualidade.

Por Paulo Neto.

A admiração mútua que recheia a relação profissional e pessoal entre estes dois excelentes atores faz render uma química absolutamente honesta e palpável. O amor pela profissão e o afeto pelo talento do outro impulsionam, de maneira eficiente, a ótima comédia “Até Que O Casamento Nos Separe”, em cartaz no Teatro Itália, em São Paulo. Escrita por Cris Nicolotti, o espetáculo é um imperdível e delicioso jogo de cena entre atores talentosos que se amam e arremessam ao público esse afeto em forma de arte.

#INCITARTE – Eduardo, é notável sua agilidade cênica, capacidade de improvisações e assertividade no ritmo que o espetáculo deve ter. Sempre foi assim ou é uma habilidade aprimorada ao longo da carreira?

EDUARDO MARTINI – Obrigado pelo elogio! Adoro isso em mim, de verdade, sem nenhum egocentrismo. Essa agilidade já me salvou de pequenos acidentes em cena como microfone quebrado e salto do sapato torto. Tive aulas no Tablado com a Louise Cardoso e a Sura Berditchevski, que tinham um método de improvisação muito bacana. Eu me adaptei facilmente. Pensando bem, eu acho que sempre tive isso em mim.

#INCITARTE – Suzy, o Teatro quase sempre lhe deu comédias. Lembro de “Caixa 2” e “Sete Minutos”. Você também esteve excelente, há 3 anos, em “Divórcio”, de Franz Keppler e agora repete uma parceria vibrante com Martini em “Até Que O Casamento Nos Separe”. Já a televisão, te encaminhou para personagens mais dramáticos e menos leves, como a esposa que administra de forma madura a bissexualidade de seu marido (José Mayer) em “Império”. Como ocorre esta divisão de gêneros em dois veículos diferentes?

SUZY RÊGO – Beatriz Bolgari, de “Império”, convivia bem com a bissexualidade do marido, uma vez que o casal decidiu em comum acordo vivenciar juntos o amor de maneira ampla. Em novelas também pude expressar várias personagens com tom de humor. Na estreia, em “O Salvador Da Pátria”, a personagem Alice Cintra, no folhetim de Lauro César Muniz e Alcides Nogueira e colaboradores, tinha tiradas picantes e divertidas em relação à vida afetiva das mulheres da casa, personagens de Betty Faria, Mayara Magri, e Aldine Muller. Em “Top Model”, de Antônio Calmon, Carla era a antagonista cômica que fez par com Saldanha de Evandro Mesquita. Em “A Viagem”, Carmem traz o lirismo e a poesia de um amor misterioso com o Mascarado… Na Bandeirantes, em duas temporadas de “Floribella” (2005 e 2006), a luxuosa Malva Torres Bittencourt fez sucesso no núcleo cômico com o bordão “Ufa!”. Fiz e faço tragédia e comédia em todos os veículos, concomitantemente.

#INCITARTE – A primeira vez que vi vocês dois juntos em cena neste texto me chamaram atenção o dueto de alto nível e a química cênica entre vocês dois. Como conseguem esta unidade, esse amálgama de talentos convergindo para o bem do texto e do público?

S.R. – Dialogamos constantemente e Martini é sempre muito preciso e objetivo com a direção dele. Ele aproveita e otimiza o que o intérprete tem de melhor e é um exímio jogador. Comparo teatro com jogo de vôlei, a conexão precisa ser total, há extremo valor em recepcionar a bola, levantar e cortar. O objetivo é ganhar o jogo, é um trabalho em equipe. Tenho por hábito ser exigente comigo e respeito o que é proposto pela direção geral. Sempre consulto o diretor quando surge uma ideia, uma mudança, uma gag. É importante oferecer ao público um trabalho polido, caprichado, pulsante. Me empenho para tal e tenho no Martini uma fonte de inspiração, admiração e um gigantesco prazer em dividir a cena, o palco, o camarim. Quando ele é aplaudido em cena aberta (o que é frequente), por dentro, também o ovaciono de pé.

#INCITARTE – Martini, há quase 10 anos acompanho seu trabalho e nunca o vi com somente uma peça em cartaz. São 2, 3 e, às vezes, até 4 espetáculos ao mesmo tempo, na mesma semana. Qual o segredo dessa memória impressionante?

E.M. – Memória? [Risos.] Paixão! Amo o que faço e tenho o maior respeito pelo público que vai me ver! Sou muito grato a Deus por ter a saúde que tenho e poder pisar no palco inteiro, de peito aberto pro que der e vier. Sou muito inquieto, sempre preciso de algo novo, gosto de desafios e acho que acabei me acostumando a esse ritmo. Por mim, estaria em cartaz de segunda a segunda [Risos] e o melhor de tudo é ter o público presente, comparando um trabalho ao outro e se divertindo. Essa é a função do teatro.

#INCITARTE – Suzy, a maternidade muda a forma como a atriz encara o ofício?

S.R. – A maternidade mudou a forma como encaro a vida. As prioridades mudam, os valores também, fiquei mais atenta, presente, aguçada e intuitiva. Ou já era assim e após a maternidade (gemelar) me despertou para observar mais, ouvir mais, reparar mais e a convivência com Fernando Vieira também trouxe e traz muito desse aprendizado.

#INCITARTE – Martini, considero você um dos atores e comediantes mais versáteis e habilidosos do país. Existe algum personagem que gostaria de viver? Algum diretor com quem gostaria de trabalhar?

E.M. – Vindo de você fico muito feliz ! Gosto muito do que você escreve e a maneira com a qual vê a arte no nosso país. Quero agora fazer os clássicos das comédias. Estou realizando um sonho. “Papo com o Diabo”, uma comédia do Bruno Cavalcanti, me levou a ser dirigido pelo Elias Andreato, um monstro sagrado das artes, um ser humano hilário, divertido e muito gentil. Estou extasiado! Outro diretor que já estamos conversando é o Fernando Guerreiro, baiano arretado, divertido e talentoso. Ele é um dos papas da comédia. Ainda não definimos tudo mas logo mais te conto!

#INCITARTE – Suzy, você já foi Miss Pernambuco em 1984 e neste ano completou 50 anos. Como você avalia a ditadura da beleza nos dias atuais? E qual a disponibilidade de papéis para mulheres na sua faixa etária?

S.R. – A responsabilidade é nossa, das mulheres, ter cautela em relação a padrões. A publicidade vende produtos e serviços que prometem felicidade caso você as tenha, as compre, as consuma. Então, persegue-se algo que crê-se que será encontrado fora, num shampoo, num alimento, num creme, num carro, num perfume. Sou feliz porque essa sempre foi a decisão que tomei, sou feliz porque sou grata ao que sou e ao que busco. E sou feliz e grata por respeitar minhas fases e compreender que sou humana, portanto, falível, e sendo assim, mutante. Experimento, arrisco, relaxo, capricho, enfim, vivo. E noto que os tais padrões são perpetuados porque a grande maioria das mulheres julga e critica incansavelmente a si mesmas e as outras, e se frustram por crer que felicidade só reside em corpo perfeito. O mundo é habitado por pessoas, modelos de beleza de publicidade e passarela costumam ser jovens profissionais com diferencial de altura e peso, que também são seres humanos com questões comuns, mas normalmente são vistas (e vistos) com super produções, exatamente por se tratar do trabalho, do ofício a que se dedicam. Estão a serviço da comercialização de bens materiais, são trabalhadores(as) dedicados (as). Sou artista, sou intérprete, conto histórias com minhas personagens, há 30 anos faço isso e encontro e empresto beleza às histórias de tantas personagens. Sim, há muita disponibilidade de papéis em todas as faixas etárias.

#INCITARTE – Martini, na pele de quem você se realiza mais no palco: como Valentina, a mãe superprotetora e obsessivamente afetuosa de “O Filho Da Mãe” ou como Neide, a tia irascivelmente hilária e impacientemente sarcática de “I Love Neide”?

E.M. – A Valentina me deu a oportunidade de mergulhar fundo em sentimentos nobres: no amor, na paixão, no cuidar, no defender um filho/a. A Neide me deu a oportunidade de falar qualquer coisa de uma maneira politicamente incorreta. E eu me divirto muito. A mulher mais incrível da TV, Hebe Camargo, avalizou a Neide de uma maneira que as pessoas mandam presente pra ela, não pro Eduardo. Tratam a Neide como alguém da familia. Isso é hilário. E eu? Amo! Se formos analisar, Neide Boa Sorte é uma personagem que apareceu na TV pra uma brincadeira, depois virou quadro fixo do programa da Hebe, depois fez todos os quadros de humor. Foi pro teatro com o monólogo “I Love Neide – Manual de uma Cinquentona Atrevida” e o mesmo personagem numa viagem hilária em “I Love Neide – A Viagem”. Um personagem que fez duas comédias é, no mínimo, diferente. Sou apaixonado pelas duas.

“ATÉ QUE O CASAMENTO NOS SEPARE”

Com Eduardo Martini e Suzy Rêgo

Direção: Eduardo Martini

Texto: Eduardo Martini e Cris Nicolotti

Teatro Itália (Av. Ipiranga, 344 – República – São Paulo)

Sábados às 21h e Domingos às 20h.

Ingressos: R$ 80 (inteira)*

*Ingressos com 50% de desconto disponíveis em sampaingressos.com.br

Até 1/10/17!

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