ENTREVISTA Jefferson Schroeder: Ator estreia como dramaturgo em “A Produtora e a Gaivota”, excelente monólogo dirigido por João Fonseca.

Por Paulo Fernando Góes.

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“A Produtora e a Gaivota”: Uma comédia inteligente que não perde seu propósito de fazer rir. FOTO: Thiago De Lucena.

Está em cartaz no Teatro Cândido Mendes, em Ipanema, o espetáculo “A Produtora e a Gaivota”, uma comédia escrita por Jefferson Schroeder, inspirada em “A Gaivota”, de Anton Tchekhov, uma das obras literárias mais importantes da dramaturgia universal. A densidade e o peso da obra, que podem assustar os não iniciados no universo do Teatro, passam longe da leveza e da graça que traz o espetáculo de Schroeder. Isso só reitera a importância de seu texto, que aproxima o público do autor russo.

Em “A Produtora e a Gaivota”, Meire Sabatine é uma produtora que está esperando seu elenco chegar para a apresentação de “A Gaivota”. Engarrafados, o diretor avisa que não chegarão a tempo de encenar o espetáculo e, por isso, pede para que a produtora cancele o espetáculo e devolva o dinheiro à plateia. Apavorada com a possibilidade desse prejuízo, Meire decide entreter o público e acaba por contar ela própria a história de “A Gaivota”. A graça maior está justamente no deboche tedioso com que Meire encara o Teatro. Com excelente timing de comédia e imensa habilidade em personagens femininos, Jefferson convence plenamente no papel desta mulher de 50 anos, apesar dos seus 29. Se vilã de novela fosse, torceríamos por Meire Sabatine.

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Jefferson Schroeder como Meire Sabatine: A hilária personagem conquista o público com seu olhar debochado sobre o Teatro. FOTO: Thiago De Lucena.

Confira a entrevista exclusiva com o ator Jefferson Schroeder e fique atento aos dias e horários em que o espetáculo está em cartaz. Assistir “A Produtora e a Gaivota” é uma oportunidade imperdível.

#INCITARTE – João Fonseca, diretor de “A Produtora e a Gaivota”, dirigiu o blockbuster teatral “Minha Mãe é uma Peça”, que projetou Paulo Gustavo ao Brasil e que começou pequeno, no mesmo Teatro onde você está em cartaz. Este fato cria expectativas em você?

JEFFERSON SCHROEDER – Acho todo este histórico bem animador. Sempre tem alguém que diz que o Teatro Cândido Mendes é berço de sucessos, que estar ali já é um bom começo. Citam muito o monólogo do Paulo Gustavo e da Mônica Martelli como exemplos que passaram por ali. E o João, claro, tem um nome muito forte, dirige sempre peças que fazem muito sucesso. A soma desses dois elementos geram talvez um marketing espontâneo e isto acaba sendo uma luz bonita no meio das outras que temos para iluminar a nossa peça. Estamos indo bem com a peça e sinto que as minhas expectativas andam juntas com os passos que estamos dando.

#INCITARTE – Este é o segundo monólogo dirigido por João Fonseca e, certamente, ele foi assediado por vários atores para outros trabalhos solo desde “Minha Mãe é uma Peça”. Como você o conquistou?

J.S. – Eu soube no meio dos nossos ensaios que o meu monólogo era o segundo dirigido pelo João. Acabamos nem desenrolando este assunto, mas já pensei sim que ele deve ter sido convidado para vários outros. Nós trabalhamos juntos na peça “O Livro dos Monstros Guardados”, de Rafael Primot. Ali me encantei pela forma afetiva da direção dele, que remete aos grandes gênios do teatro: dirigindo sem hierarquia, trabalhando com o material que surge do ator, jogando junto, prestando atenção no que é mais produtivo para o coração de cada um que está em cena. Um trabalho de generosidade e amor que exige muita disciplina por parte do diretor e que acaba gerando muita responsabilidade no elenco. Creio que nos conquistamos sendo inteiros um com o outro.

#INCITARTE – Sua personagem, Meire Sabatine, tem a árdua tarefa de produzir espetáculos mas, ao mesmo tempo, ela zomba do Teatro. É uma relação de amor e ódio?

J.S. – Sim, ela é uma artista frustrada. Talvez em algum lugar seja verdade quando no texto ela diz que não queria trabalhar como produtora teatral, mas ela interfere tanto nas criações artísticas das peças que isso dá indícios de que ela sente muito prazer com a arte, que tem impulsos de dirigir e opiniões próprias sobre o que faria caso fosse uma diretora de peças. Meire pra mim é a materialização de pessoas que se escondem por trás de personalidades difíceis de lidar para tentar camuflar fragilidades e desejos reprimidos.

#INCITARTE – Você se inspirou em alguém específico para criar a personagem?

J.S. – Não tem uma pessoa específica, se tivesse uma pessoa eu diria que sim e talvez não falasse o nome. Mas é inevitável que ela remeta a produtores que existem no mercado teatral e até mesmo no audiovisual. Tudo o que é dito ali é pensado com uma ligação com a realidade, com coisas que já vivi, já ouvi ou que sei que existe muito. Talvez pareça um pouco injusto para alguns produtores, nem sei, porque todos que viram pareceram gostar, mas o exagero e a caricatura fazem parte da crítica, do humor da personagem, e de uma forma de refletir sobre o quanto também é difícil produzir teatro no Brasil.

#INCITARTE – Qual foi sua primeira impressão ao ler “A Gaivota”, de Tchekhóv?

J.S. – Isto foi outro aprendizado. Queria que a peça escolhida para desenvolver no monólogo fosse uma peça amada no mundo todo, um clássico quase que incontestável. Escolhi a Gaivota por ser muito famosa e principalmente por falar de teatro, o que geraria opiniões da Meire. Abri uma Gaivota que encontrei no Google e fui lendo e anotando coisas que a Meire diria sobre cada parte marcante, mas no final de tudo eu não tinha gostado da peça. Fiquei frustrado com isso porque queria no fundo criticar algo lindo, para ser mais engraçado e também gerar uma mudança no olhar da personagem no decorrer da peça. Por sorte, senti que deveria ter uma versão impressa para facilitar a criação do meu texto. Consegui então uma Gaivota traduzida pela Bárbara Heliodora. Parei para ler e em poucos minutos eu estava completamente submerso naquele universo, extasiado diante de uma obra-prima. Senti ali o quanto uma tradução é responsável para que uma obra permaneça pura, independente da língua em que esteja sendo dita. Através das palavras de Bárbara pude sentir o universo de Tchekhov e entender porque este texto é uma das peças mais famosas do mundo.

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JEFFERSON SCHROEDER: “As pessoas precisam entender o que está no palco. Creio que o abstrato não tem ajudado muito o nosso teatro.” FOTO: Fábio Audi.

#INCITARTE – Este espetáculo é sua estreia como dramaturgo. Pretende continuar a escrever para outros atores ou este foi um experimento particular?

J.S. – Como este foi meu primeiro texto grande encenado tive um trabalho maior para chegar ao ponto de ficar satisfeito com ele. Achava que isto era por conta da minha falta de experiência em escrever peças, mas depois soube por outros autores que é sempre assim, que você vai lapidando até poder ver a obra clara. Desejo escrever mais, para mim ou para outros atores. Já tenho alguns textos levantados que pretendo desenvolver.

#INCITARTE – Neste momento de crise, muitos atores tem vontade de empreender-se. Quais foram suas dificuldades para levantar “A Produtora e a Gaivota”?

J.S. – Antes de tudo, se você deseja fazer, faça. Parti da ideia de que seria simples. Deveria ter uma pauta em um teatro, um texto, um diretor e um lugar para ensaiar. Contei com a ajuda de um grande amigo meu que produziu comigo, isto ajudou muito. Também convidei pessoas que eu gosto de estar perto, que tenho uma amizade, um carinho, ou que são amigas de quem faz parte da equipe. A maior dificuldade é a grana. Você acaba pagando para ser visto. Mas isto não é novidade. Não tem muita complexidade, é realmente mais uma peça. Produzir também te dá uma liberdade maior nas escolhas, mas também exige de você uma maturidade para saber lidar com as pessoas e com uma sensação de poder que é sempre perigosa. Tenha um pouco de dinheiro reservado, porque sempre gasta em algo, trabalhe com amigos, e tenha algo em mãos que você acredite e que faça sentido. As pessoas precisam entender o que está no palco. Creio que o abstrato não tem ajudado muito o nosso teatro.

“A PRODUTORA E A GAIVOTA”

Texto e Atuação: Jefferson Schroeder

Direção: João Fonseca

Teatro Cândido Mendes (Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema)

3as, 4as e 5as, às 20 horas.

Ingressos: R$ 40 (inteira) / R$ 20 (meia)

Somente até 31/8/17!

 

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