“A Outra Casa”: espetáculo instigante em nova temporada no Leblon.

Por Paulo Fernando Góes.

Não estranhe se você começar o espetáculo meio perdido. É intencional. A personagem Juliana Smithton, uma renomada neurologista que promove uma droga contra a demência, acaba por tornar-se objeto do próprio estudo quando sua memória apresenta sinais de transtorno. A protagonista é quem narra sua própria história e é praticamente segurando em suas mãos que a plateia acompanha sua jornada de buscas e descobertas. Suas visões são reais? O que aconteceu com sua filha? Os personagens com os quais interage são verdadeiros ou apenas um devaneio? “A Outra Casa”, de Sharr White, é o tipo do espetáculo que não se deve falar muito sobre para quem ainda não assistiu. Apenas confie e vá ver. E fique tranquilo, todas as perguntas serão respondidas.

A outra casa

Gabriela Munhoz e Helena Varvaki: atuações que renderam indicações a prêmios.

No momento em que as cortinas se abrem, estão em cena Helena Varvaki, Sávio Moll, Gabriela Munhoz e Rick Yates, de pé, com olhares conectados. Basta seus silêncios para percebermos que ali há atores inteiros, concentrados e plenos em suas funções. Não poderia ser diferente, uma vez que a história a ser contada, para fisgar o cérebro e coração do público, exige 4 atores que sejam, no mínimo, excelentes. E é exatamente isso que acontece em “A Outra Casa”.

O diretor Manoel Prazeres opta por um palco enxuto, com muitas movimentações cênicas dos atores, porém, sem “sujeira”. A inquietude de todos os personagens não poderia ficar apenas no texto. Projeções de uma palestra da dra. Juliana também ajudam a costurar a história. A montagem tem como alicerce os pilares do bom teatro: grandes atores e grande dramaturgia. E aqui valem aplausos para Diego Teza (tradutor de “O Camareiro”), responsável pela versão em português para “The Other Place”. Diego ainda fez-se presente nos ensaios para auxiliar os atores em qualquer passagem não compreendida. Também não há como negar que a história de “A Outra Casa” lembra muito “Para Sempre Alice”. O filme rendeu o Oscar de Melhor Atriz para Juliane Moore e mostra o drama de uma professora de linguística que é afetada pelo mal de Alzheimer. Mas as histórias não tem relação: a peça estreou em março de 2011 e o filme em 2014.

Helena Varvaki foi merecidamente indicada a 4 prêmios de Melhor Atriz pelo papel de Juliana. Sua interpretação prende, surpreende, comove e arrebata. Gabriela Munhoz (também indicada a 2 prêmios) é um monstro em cena. Revezando-se em diferentes papéis, está sobre suas costas a responsabilidade de desanuviar as dúvidas da plateia e ela o faz com a maestria dos grandes. Sávio Moll e Rick Yates também entregam seus personagens numa bela e sensível composição.

Em tempos onde muito se fala sobre boa alimentação e cuidados com o corpo, “A Outra Casa” nos relembra que nossa mente também é frágil e vulnerável. O espetáculo é obrigatório pra qualquer um que deseje como experiência a transformação através da arte. Um pedaço daqueles personagens vão embora com você pra casa. E, diferente deles, pra nós não há sofrimento. Só há beleza.

“A OUTRA CASA”

De Sharr White.

TRADUÇÃO: Diego Teza

DIREÇÃO: Manoel Prazeres.

ELENCO: Helena Varvaki, Sávio Moll, Gabriela Munhoz, Rick Yates.

TEATRO MUNICIPAL CAFÉ PEQUENO (Av. Ataulfo de Paiva, 269, Leblon)

De 6a a domingo, às 20 horas.

INGRESSOS: R$ 20 (meia) e R$ 40 (inteira)

CURTA TEMPORADA!

Somente até dia 2/4/17.

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